Título: É hora de virar a página
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 01/09/2010, O Mundo, p. 33
Pressionado pelas eleições, Obama põe fim à missão de combate no Iraque, mas não canta vitória
OBAMA COM militares em Fort Bliss, no Texas: presidente foi cauteloso ao anunciar o fim da missão de combates no Iraque; cinquenta mil soldados permanecem no país
Em seu segundo pronunciamento em cadeia nacional direto do Salão Oval da Casa Branca ¿ o primeiro tratou do vazamento de óleo no Golfo do México ¿ o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, anunciou oficialmente ontem à noite o fim da missão de combate americana no Iraque e o início de uma nova etapa para as tropas que permanecem na região. E o fez como o cumprimento de uma promessa, mas com o cuidado de não cantar vitória.
¿ Como candidato e como presidente, prometi dar um fim responsável à guerra no Iraque. Agora, estamos dando um importante passo adiante no cumprimento dessa promessa. É hora de virar a página ¿ disse.
Dos 144 mil soldados que estavam em ação no solo iraquiano quando Obama assumiu o mandato, restam hoje no país 50 mil, cuja retirada está prevista para dezembro de 2011. Embora os militares que continuam em missão possam vir a atuar em combates em caso de necessidade, o discurso presidencial enfatizou a mudança da natureza de sua operação.
¿ Nossa missão de combate está terminando, mas nosso compromisso com um Iraque soberano, estável e autônomo continua. Nossa missão no Iraque muda, 50 mil soldados permanecerão para treinar e apoiar as forças de segurança iraquianas, que assumirão a total responsabilidade pela segurança de seu país em 1º de setembro ¿ afirmou Obama na TV.
Empenho para melhorar a imagem
Pressionado pela proximidade das eleições legislativas ¿ nas quais corre o risco de perder a maioria no Senado e na Câmara ¿ pelos frágeis resultados de recuperação econômica do país e pela queda de popularidade nas pesquisas de opinião, Obama se empenhou ontem em melhorar a imagem do governo ao afirmar o cumprimento de sua estratégia militar no Iraque e congratular os soldados e veteranos de guerra.
Antes de falar em cadeia nacional, o presidente telefonou para seu antecessor, George W. Bush.
¿ É conhecido o nosso desentendimento em relação à guerra desde seu princípio. Porém, ninguém pode duvidar do apoio do presidente Bush às nossas tropas, ou do seu amor pelo nosso país e do seu compromisso pela nossa segurança ¿ disse Obama.
À tarde, o presidente viajara a Fort Bliss, no Texas, para um encontro com tropas recém-chegadas do Iraque. Num esforço conjunto, o vice-presidente Joe Biden fez uma visita surpresa ao primeiro-ministro iraquiano, Nuri al-Maliki, em Bagdá.
¿ Hoje o Iraque é soberano e independente. Nossas forças vão assumir a liderança para garantir a segurança e a proteção do país e remover todas as ameaças que surjam, sejam internas ou externas ¿ disse Maliki.
A Casa Branca e o Pentágono, no entanto, evitam ostentar a retirada das chamadas ¿tropas de combate¿ como sinal de uma guerra vitoriosa. Em Milwaukee, o secretário de Defesa, Robert Gates, foi mais cauteloso ainda ao alertar contra ¿prematuras comemorações de vitória e autocongratulações¿. O secretário sublinhou o papel dos 50 mil soldados americanos junto às forças de segurança iraquianas em meio aos contínuos ataques rebeldes ¿ responsáveis por mais de 50 mortes só na semana passada.
¿ Não estou dizendo que tudo está bem no Iraque ¿ advertiu Gates.
No mesmo tom, avaliou que o sucesso dos EUA na guerra do Afeganistão era possível, e não inevitável.
¿ Sei que há impaciência em relação ao ritmo de avanço desde o anúncio da nova estratégia, em dezembro passado ¿ disse, referindo-se ao envio de mais 30 mil soldados ao país, levando a quase 100 mil o número de militares americanos no Afeganistão.
Deflagrada em 2003 no governo de George W. Bush, sob o controverso argumento da posse de armas de destruição em massa por parte do governo de Saddam Hussein ¿ até hoje nunca comprovada ¿ a guerra no Iraque apresenta uma pesada conta para os EUA: 4.416 americanos mortos e 31.911 feridos; 176 mil soldados presentes no pico do conflito; US 750 bilhões de custo estimado nos sete anos de conflito. No Iraque, o balanço é incerto: infraestrutura precária, violência presente e estabilidade política a ser construída.
É cedo para avaliar se o aparato cuidadosamente preparado pela Casa Branca para anunciar ¿ e comemorar ¿ a retirada das tropas de combate poderá influenciar no índice de aprovação presidencial e na reputação do governo. Em todo caso, Obama vai precisar de toda ajuda para enfrentar as urnas no dia 2 de novembro. Segundo a última pesquisa do Instituto Gallup, os republicanos têm um avanço recorde de dez pontos percentuais ¿ 51% contra 41% ¿ sobre os democratas entre eleitores registrados para o pleito legislativo. Num claro sinal de que as questões domésticas são a sua prioridade no horizonte eleitoral, Obama afirmou que sua mais urgente tarefa é a recuperação da economia, a criação de empregos e a educação.
¿ Isso será difícil. Mas nos dias que virão, deve ser nossa principal missão como povo, e minha responsabilidade central como presidente.
oglobo.com.br/mundo