Título: Peço que Lula não nos abandone
Autor:
Fonte: O Globo, 02/09/2010, O Mundo, p. 31

Filho de Sakineh suplica ao presidente para insistir com Ahmadinejad pela vida da mãe

Sajjad Ghaderzade, filho de Sakineh Ashtiani - a iraniana cuja condenação à morte por apedrejamento mobilizou a comunidade internacional - faz um apelo dramático ao presidente Lula para que não abandone a luta para salvá-la. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, feita por telefone e traduzida pela iraniana Mina Ahadi - da Comissão Internacional contra o Apedrejamento - Sajjad diz que foi proibido de ver a mãe há uma semana e demonstra aflição com o sumiço dos documentos do processo sobre o homicídio de seu pai, pelo qual Sakineh foi, segundo ele, injustamente condenada. O jovem de 21 anos tem vivido, ao lado da irmã Saide, de 17, um drama que comove o mundo.

Graça Magalhães-Ruether

Quando você viu a sua mãe pela última vez?

SAJJAD GHADERZADE: Foi pouco depois da transmissão da entrevista dela na televisão, há duas semanas. A regra é que eu e minha irmã temos o direito de visitá-la uma vez por semana. Mas na última, quando cheguei à prisão, ouvi dos funcionários a informação de que minha mãe não queria nos ver. Depois, conseguimos falar com ela pelo telefone, e ela contou que nem tinha sido informada da nossa tentativa de visitá-la. Fiquei muito chocado, mas depois ouvi do advogado (Houtan Kian) a informação de que se trata de mais um método para nos pressionar. Amanhã (hoje) vamos de novo à prisão tentar vê-la.

Os jornais brasileiros têm escrito muito sobre o caso da sua mãe. Como você se sente ao ver que muita gente se mobiliza para salvar sua vida, mas, mesmo assim, não deve ser possível uma anulação da sentença?

SAJJAD: Nós ficamos muito tocados e felizes ao tomar conhecimento da participação dos brasileiros na nossa luta, que é uma batalha também contra os crimes contra os direitos humanos que são praticados pelo regime islâmico do Irã. Nós temos esperança, mas também temos muito medo de que, no final, aconteça o pior, que a minha mãe seja executada. Nós vivemos um pesadelo.

Na sua opinião, a oferta de asilo político feita pelo presidente Lula ajudou de alguma forma?

SAJJAD: O efeito foi muito positivo. A partir daí, o mundo tomou mais conhecimento do nosso drama, da tentativa do regime de executar de forma medieval uma mulher inocente. Mas eu queria apelar com veemência para que o presidente Lula, por favor, continue nessa direção. Ele não deve nos abandonar, deixar-nos sozinhos na luta. A sua voz (do presidente) tem mais peso junto ao presidente Ahmadinejad do que a nossa. Para o regime, não valemos nada. O presidente brasileiro deve insistir e não aceitar a desculpa do líder iraniano, que disse que o Irã enviaria ao Brasil tecnologia, e não pessoas como a minha mãe. Mas eu queria acentuar que o simples gesto de oferta de asilo já teve um efeito muito positivo.

O que os governos brasileiro e de outros países poderiam fazer ainda?

SAJJAD: Eu acho que o Brasil poderia entrar em contato com as autoridades iranianas e formular de novo a oferta de asilo. Eu gostaria que o país interferisse mais no caso, falasse com o governo iraniano. E, se Ahmadinejad dissesse não, Lula não deveria aceitar a resposta e deveria dizer que se trata da vida de Sakineh Ashtiani.

Como você e sua irmã passaram o último fim de semana, quando tiveram a informação de que Sakineh seria executada logo?

SAJJAD: Nós ficamos num estado psíquico terrível quando a minha mãe telefonou num dia e contou que, na noite anterior, havia recebido a notícia de que a sentença de morte tinha sido confirmada e que ela seria executada no dia seguinte. A minha mãe disse que escreveu um testamento e ficou aguardando, apavorada, a sua execução. Foi um choque indescritível. Depois telefonei para o nosso advogado, Houtan Kian, que acredita que a mentira sobre a possível execução tinha por objetivo pressionar a nossa mãe. Kian afirma que a pena de morte não foi ainda confirmada.

Você tomou conhecimento sobre mais duas pessoas que teriam sido condenadas à morte por apedrejamento no Irã por causa de adultério?

SAJJAD: Não ouvi falar. Isso não foi divulgado pela imprensa iraniana.

Como tem sido a vida de vocês (dele e da irmã) desde que Sakineh está na prisão?

SAJJAD: Tem sido muito difícil, mas assim mesmo todos os dias eu vou trabalhar (ele não quis dizer onde). A minha irmã vai à escola em Tabriz. Agora ela está de férias, mas está sem vontade de fazer o que normalmente fazia nas férias: sair, encontrar os amigos. Ela passa o dia todo em casa, não tem vontade de fazer nada. A minha avó sofre muito com a situação, está muito triste, sofre de pressão alta de tanta preocupação.

Qual foi o momento mais difícil dos últimos anos?

SAJJAD: A experiência mais difícil em toda a minha vida eu tive quando ouvi que a minha mãe havia sido condenada à morte por apedrejamento. Agora, também, vivo momentos muito difíceis porque o regime islâmico tenta criar uma nova versão sobre a nossa história e sobre a minha mãe. Foi um choque para mim, na última semana, quando tomei conhecimento de que todos os documentos sobre o processo de homicídio do meu pai desapareceram. A casa do advogado foi vasculhada e as autoridades confiscaram documentos, também os relativos à minha mãe. Tenho medo de que o regime esteja tentando documentar as mentiras que foram divulgadas, na entrevista da televisão, de um envolvimento da minha mãe no crime.

É verdade que a confirmação da sentença por parte da Suprema Corte do Irã foi adiada para depois do fim do Ramadã (o mês sagrado dos muçulmanos)?

SAJJAD: Sim, e isso me deixa muito preocupado. Tenho medo de que o governo esteja preparando uma sentença que declare a minha mãe culpada do crime da morte do meu pai, para que ela seja executada depois do Ramadã. As autoridades procuram ganhar tempo até que termine o mês, e eu tenho medo do pior.

Se a sentença contra a sua mãe for anulada, você e sua irmã gostariam mesmo de ir morar no Brasil?

SAJJAD: Sim, se ela for libertada, nós todos queremos ir morar no Brasil. Até agora, não conheço nada sobre o Brasil, mas acho que deve ser um pais democrático. Para nós, que nascemos neste regime islâmico, a ideia de morar no Brasil é muito positiva