Título: Sempre em pé de guerra
Autor: Beck, Martha; Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 03/09/2010, O País, p. 4

Receita é alvo de disputas internas de poder entre grupos

BRASÍLIA. A Receita Federal, que vive hoje uma de suas maiores crises institucionais, é há muito tempo alvo de disputas internas entre grupos que controlam as dez superintendências no país. Durante muito tempo, o comando do órgão esteve nas mãos de um grupo ligado a Jorge Rachid, auditor de carreira que foi homem de confiança de Everardo Maciel (secretário da Receita no governo Fernando Henrique) e que hoje ocupa o cargo de adido tributário nos Estados Unidos.

Os adversários de Rachid viram em sua demissão pelo ministro Guido Mantega a chance de ter mais voz dentro do órgão e, ao mesmo tempo, ganhar força para negociar demandas que estavam engavetadas pelo comando anterior. Essa chance veio com a chegada de Lina Vieira ao poder, que trouxe com ela demandas das superintendências no Nordeste e no Rio.

Com a queda de Lina, dirigentes da Receita ameaçaram com uma demissão em massa. A escolha de Otacílio Cartaxo, que era o segundo na hierarquia do órgão, ajudou a acalmar os ânimos. Mas as acusações de aparelhamento da Receita não foram contornadas. Cartaxo, agora, está no centro do escândalo das quebras de sigilo de tucanos.

E não é apenas na disputa pelo poder que a Receita é afetada por turbulências. Analistas tributários e auditores fiscais trabalham no mesmo lugar, mas vivem em pé de guerra. Não se suportam. O episódio que envolveu a analista Antônia Aparecida Rodrigues Neves e outras servidoras investigadas sob suspeita de ter acessado e vazado dados fiscais de tucanos trouxe à tona esse racha.

Esta semana, o Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita (Sindifisco) anunciou que entraria com ação na Justiça do Trabalho pedindo que o Sindicato Nacional da Carreira Auditoria da Receita Federal do Brasil (Sindireceita), dos analistas, seja proibido de usar este nome e quer indenização por danos morais. Cogitou pedir R$1 milhão de indenização.

Auditores e analistas são duas categorias diferentes que atuam na Receita e que travam uma disputa por atribuições e espaço em agências de atendimento e postos de fronteira. O pega virou uma briga pública, que extrapola os muros das entidades sindicais e do Fisco. E chega ao público via boletins das categorias, nos informes e nos sites dos dois sindicatos.

A notoriedade do caso que vitimou o tucano Eduardo Jorge e até a filha de Serra fez o Sindifisco divulgar nota: "Antônia é analista, e não auditora." Uma estocada no Sindireceita. Os auditores afirmam que a servidora é suspeita de acessar dados do tucano e aproveita para lembrar que analista é "um cargo com funções auxiliares". O Sindireceita retrucou em seu boletim, alegando que há muito mais auditores envolvidos em escândalos que analistas.