Título: João Cunha, o impetuoso
Autor: Fabrini, Fábio; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 09/09/2010, O País, p. 13

Não se conta a história da resistência parlamentar à ditadura sem se referir ao nome de João Cunha, um jovem muito bonito, de quase dois metros de altura, que chegou à Câmara dos Deputados em 1975. Essencialmente impetuoso, João Cunha (MDB), ou ¿João Bonitão¿, como era chamado, despertava amor e ódio, indiscriminadamente, no governo e na oposição.

Agora, olhando aquele Congresso, 35 anos depois, é possível dizer com segurança que ¿ mesmo com todos os seus arroubos ¿ João Cunha contribuiu, com a sua insana coragem, para, no mínimo, constranger os ditadores. Talvez nem ele saiba disso.

Quem xingava o presidente Geisel e o acusava de envolvimentos escusos no polo petroquímico de Camaçari? Quem chamava o presidente Figueiredo de ¿cínico¿? Quem foi o primeiro parlamentar a gritar da tribuna que Vladimir Herzog e Manoel Fiel Filho foram ¿bárbara e covardemente assassinados¿?

Só se deu mal uma vez, durante a inquisição ao então ministro todo-poderoso Delfim Netto. Cunha se preparou muito para enfrentar Delfim, mas foi nocauteado por um erro:

---- Quero que Vossa Excelência aceite minha indignidade!

E Delfim:

¿ Eu preferia aceitar a sua indignação, nobre deputado.

Aliás, nesse evento, o então deputado Eduardo Suplicy também se deu mal. Levou para a tribuna um carrinho de madeira cheio de tomates para mostrar a inflação do governo. Mas os tomates caíram no chão, e Suplicy saiu catando-os pelo chão do plenário.

Mas voltemos ao nosso personagem. João Cunha foi o parlamentar mais censurado pelos diários oficiais da Câmara e do Congresso. Fez um discurso violento contra os militares e foi processado conjuntamente pelos ministros do Exército, Walter Pires; da Marinha, Maximiano da Fonseca; e da Aeronáutica, Délio Jardim de Matos.

Não importa se, na hora do perigo, corria para debaixo das saias da cúpula do MDB, ainda que dias depois xingasse Tancredo da tribuna por causa do encontro com Geisel.

¿ João Cunha, você é um ingrato. Fui ao presidente Geisel te defender.

¿ Como assim?

--- Aconselhei-o a parar de te enquadrar na Lei de Segurança Nacional, porque essa você já desmoralizou. E sim no artigo 477 (aquele específico para estudantes)...

Tancredo e Ulysses Guimarães eram as principais vítimas da impetuosidade do deputado. Certo dia, Tancredo explodiu:

¿ Ulysses, o João Cunha passou dos limites. Antes, éramos raposas felpudas. Agora, somos ¿putas velhas¿!

¿- Pois é, Tancredo, eu já respondi: ¿João, puta, sim; velha. não.¿ Mas eu vou falar de novo.

E Ulysses chamou João Cunha, que, como sempre, entrou no seu gabinete, abriu os braços e o saudou:

¿ Meu estadista!

E Ulysses:

¿ João, por que você não me chama de ¿estadista¿ lá fora e me xinga aqui dentro?