Título: Irã: produção nuclear cresce 15% sob sanções
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Fonte: O Globo, 07/09/2010, O Mundo, p. 27

Relatório da AIEA expõe temor de que país esteja mesmo de olho na bomba atômica; para Teerã, documento é parcial

VIENA. Apesar de uma nova rodada de sanções impostas pelas Nações Unidas - além de restrições unilaterais aplicadas por outros países - o Irã aumentou sua produção nuclear em pelo menos 15% desde maio passado. Segundo um relatório confidencial da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o país produziu 2,8 toneladas de urânio enriquecido a níveis baixos e pelo menos 22 quilos do material enriquecido em maior concentração. No texto, a agência demonstra preocupação com as supostas intenções iranianas de fabricar uma bomba atômica e com o fato de que o país segue violando determinações do Conselho de Segurança da ONU e da própria AIEA.

"Estima-se que entre 9 de janeiro de 2010 e 20 de agosto de 2010 (...), 22 quilos de UF6, urânio enriquecido a 20%, foram produzidos em sua usina piloto em Natanz", afirmou a AIEA, que condenou ainda as "repetidas objeções" ao trabalho dos inspetores da agência no país.

"A agência rejeita as bases pelas quais o Irã tentou justificar a objeção e também está preocupada que as repetidas objeções à indicação de inspetores experientes impeçam o processo de inspeção e prejudiquem as capacidades da agência de implantar salvaguardas ao Irã", diz outro trecho do texto.

Chanceler francês cogita ir a Teerã interceder por Sakineh

A divulgação do documento causou sobressalto em Washington. Um porta-voz da Casa Branca, Tommy Vietor, classificou as informações como preocupantes. Para os Estados Unidos, o relatório prova que Teerã continua tentando desenvolver armas nucleares.

- O último relatório da AIEA sobre o Irã demonstra novamente que o país se nega a cumprir suas obrigações nucleares internacionais e continua o esforço para expandir seu programa e se aproximar da capacidade de produzir armas nucleares - declarou Vietor.

Em Teerã, no entanto, o presidente da agência nuclear iraniana, Ali Asghar Soltanieh, acusou o documento de parcialidade e criticou o presidente da AIEA, Yukia Amano.

- O relatório de Yukiya Amano prejudicou a reputação técnica da agência e não era balanceado, comparado aos de seu antecessor, Mohamed ElBaradei - afirmou o iraniano à agência estatal Mehr, acrescentando: - Todas as atividades nucleares do Irã estão sob a supervisão da AIEA.

Além da pressão sobre a questão nuclear, cresce ainda em Teerã, às vésperas do Eid al-Fitr, festividade que marca o fim do Ramadã, na próxima quinta-feira, a tensão acerca do destino de Sakineh Mohammadi Ashtiani, a mulher condenada ao apedrejamento por adultério e pelo suposto assassinato do marido. Segundo o advogado da condenada, Javid Houtan Kian, ela pode ser executada em breve, tão logo termine o Ramadã.

Além de países como Brasil, França e Itália, o Vaticano também sugeriu que poderia interferir para tentar salvar a vida de Sakineh. Ontem, o ministro das Relações Exteriores da França, Bernard Kouchner, chamou a condenação de "o cúmulo da barbaridade" e cogitou ir a Teerã tentar resgatar Sakineh.

- Estou pronto para fazer qualquer coisa para salvá-la. Se tiver de ir a Teerã para salvá-la, então vou a Teerã - garantiu o francês.