Título: Vereador suspeito de corrupção leva sapatada
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Fonte: O Globo, 10/09/2010, O País, p. 19
Moradores de Dourados jogam moedas e impedem sessão na Câmara. Prefeito interino demite funcionários fantasmas
MANIFESTANTE ATIRA o sapato contra Aurélio Bonatto, que chegou a ser detido durante a Operação Uragano
PROTESTO DIANTE da Câmara: promotor pede afastamento de 29 pessoas
Paulo Yafusso
CAMPO GRANDE. A primeira sessão da Câmara municipal de Dourados (MS) depois das prisões de vereadores suspeitos de corrupção foi suspensa devido ao tumulto provocado por manifestantes que lotaram o plenário e arremessaram moedas e até mesmo um sapato nos políticos. Os manifestantes protestavam contra os vereadores que haviam sido detidos, e alguns deles depois liberados, pela Operação Uragano ¿ realizada pela Polícia Federal e pelo Ministério Público no dia 1º e que levou ainda à prisão o prefeito e o vice-prefeito da cidade, entre outras autoridades.
Nomeado prefeito interino pelo Tribunal de Justiça para restabelecer a ordem, o juiz Eduardo Rocha Machado demitiu ontem 130 servidores, boa parte deles funcionários fantasmas contratados por indicação de políticos. Ele determinou também a realização de auditorias nos principais órgãos da administração municipal.
Quase 60 indiciados por corrupção e fraude
O tumulto na Câmara ocorreu logo no início da sessão, presidida pelo vereador Aurélio Bonatto, segundo secretário e o único da Mesa Diretora do Legislativo que foi solto depois da ação da PF. O presidente da Casa, Sidlei Alves, e o primeiro secretário, Humberto Teixeira Júnior, estão presos preventivamente e o vice-presidente, Zezinho da Farmácia, renunciou ao mandato depois que saiu da cadeia.
Revoltado por não ter conseguido atendimento médico no serviço público para a filha, o auxiliar administrativo Adailton Castro Souza arrancou o sapato e jogou no vereador que presidia a sessão. Ele foi contido por policiais e, no mesmo instante, outras pessoas que estavam no plenário começaram a jogar moedas nos vereadores.
Em entrevista a uma rádio de Dourados, Adailton disse que o ato não foi premeditado.
¿ Vim ver a sessão e na hora não consegui me conter. Tem muita gente que queria fazer e não tem coragem ¿ declarou.
Depois do tumulto, Bonatto não quis falar com a imprensa, mas na tribuna disse que era inocente e que registraria queixa por agressão.
Prevendo que a sessão poderia acabar em tumulto, a Polícia Militar enviou 50 policiais, a maioria da Tropa de Elite da corporação, para fazer a segurança no local. O comando da PM informou que o esquema será reforçado para a próxima sessão. Em Dourados, os vereadores só realizam uma sessão por semana, em geral às segundas-feiras. Na sessão de ontem, estavam presentes apenas seis vereadores.
O promotor que cuida do caso, Paulo César Zeni, pediu à Justiça o afastamento das funções públicas de 29 pessoas indiciadas pela PF e que foram presas na Operação Uragano. Entre elas estão o prefeito Ari Artuzi, a mulher dele, Maria Aparecida Artuzi, que ocupa o cargo de Coordenadora de Políticas Públicas para Mulheres, além dos nove vereadores detidos na ação. Zeni disse que, no total, 56 pessoas foram indiciadas por corrupção ativa e passiva, fraude em licitação e formação de quadrilha. No grupo estão também empresários e assessores de vereadores.
A Operação Uragano foi desencadeada a partir da denúncia do então secretário de Governo da Prefeitura, o jornalista Eleandro Pasaia. Com equipamentos fornecidos pela PF, ele filmou o recebimento e pagamento das propinas ao prefeito e vereadores. Segundo Pasaia, por meio de fraudes em licitações e cobrança de propinas de fornecedores, Ari Artuzi arrecadava cerca de R$500 mil por mês, e pelo esquema eram obtidos ainda R$170 mil mensais para o pagamento de uma espécie de mensalão aos vereadores. Os bastidores da Operação Uragano são relatados num livro que Pasaia lança nesta sexta-feira, sob o título ¿A Máfia de Paletó¿.