Título: Fidel diz que sua declaração foi mal interpretada
Autor: Figueiredo, Janaína
Fonte: O Globo, 11/09/2010, O Mundo, p. 39

Segundo ex-líder, palavras sobre modelo de Cuba eram irônicas. Para dissidentes, ele voltou atrás

BUENOS AIRES. Depois de surpreender o mundo ao afirmar que "o modelo econômico de Cuba já não funciona nem mesmo para os cubanos", o ex-líder da ilha Fidel Castro se disse mal interpretado pelo jornalista americano Jeffrey Goldberg, da revista "The Atlantic" - a quem concedera uma entrevista exclusiva em Havana. Fidel não negou ter feito a declaração, em resposta à pergunta sobre a possibilidade de "exportar o modelo socialista cubano". Segundo ele, o que quis dizer, na verdade, é que "o sistema capitalista já não serve, nem para os Estados Unidos nem para o mundo".

- É evidente que essa pergunta levava implícita a teoria de que Cuba exportava a revolução. Eu respondo: o modelo cubano já não funciona mais nem para nós. Expressei isso a ele sem amargura nem preocupação. Divirto-me ao ver como ele interpretou ao pé da letra, depois de consultar Julia Sweig, repórter que o acompanhava e elaborou a teoria que expus - assegurou Fidel. - A realidade é que minha resposta significava exatamente o contrário do que os dois jornalistas americanos interpretaram.

Ontem, ele voltou a vestir seu tradicional uniforme verde oliva para lançar, diante de uma plateia de acadêmicos e intelectuais, a segunda parte de seu livro de memórias, "A contraofensiva estratégica", na Universidade de Havana.

Dissidente: Coragem ao falar e covardia ao desmentir

Fidel, de 84 anos, parecia tranquilo, apesar da confusão. O cubano chegou a ler à plateia trechos do site da "The Atlantic" e fez questão de reiterar que suas observações tinham caráter irônico e não furioso:

- Continuo a achar Goldberg um excelente jornalista. Ele não inventa frases, mas ele as transmite e interpreta.

Em outro trecho da entrevista, feita em vários dias de encontros em Havana, Fidel disse que o americano não compreendeu seu tom irônico em outro trecho. Goldberg destaca em seu texto que o líder revolucionário estaria arrependido de recomendar a líderes soviéticos o uso de armas nucleares contra os Estados Unidos durante a Crise dos Mísseis, em 1962. Mas, a versão correta, diz Fidel, é que ele teria agido de forma distinta caso soubesse da traição do então premier soviético, Nikita Khrushchev - que por ser beberrão, teria "repassado segredos militares aos EUA quando estava saturado por substâncias tóxicas".

Apesar da saia-justa, a pesquisadora americana Julia Sweig, do think tank Council of Foreign Relations, de Washington, que acompanhou os encontros com Fidel na ilha, garantiu à agência Associated Press que Fidel fizera, sim, os comentários conforme a reportagem da "The Atlantic".

Curiosamente, o líder cubano havia convidado o jornalista americano a ir pessoalmente a Cuba após ler um alarmista artigo de Jeffrey Goldberg, publicado há três semanas, sobre a iminência de uma ação militar israelense às instalações nucleares do Irã.

A versão do Comandante, no entanto, não convence alguns opositores cubanos. No último dia de sua visita a Buenos Aires, os dissidentes Blanca Reyes e Alejandro González Raga, que anteontem foram recebidos pelo chanceler argentino Héctor Timerman, disseram desconfiar do suposto erro de interpretação do jornalista americano. Para ele, que antes de chegarem à capital argentina foram recebidos pelo presidente do Uruguai, José "Pepe" Mujica, e importantes autoridades do Peru e Chile, "Fidel disse que o modelo cubano já não funcionava nem mesmo para os cubanos e, ao ver a repercussão internacional de suas declarações, decidiu recuar".

- Ele foi corajoso quando falou e covarde quando desmentiu - disse ao GLOBO González Raga, um jornalista que esteve cinco anos preso em Cuba e desde 2008 vive na Espanha.

Fundadora das Damas de Branco diz que luta é pacífica

Para González, "todos sabem que o sistema cubano não funciona mais, seria muito bom que Fidel admitisse isso e mantivesse sua posição".

Blanca, que fundou e lidera o grupo Damas de Branco, integrado por mulheres que tiveram seus maridos presos pelo governo cubano, disse desconfiar da atitude de Fidel.

- Tudo o que se publica sobre o ex-presidente deve ser aprovado primeiro pelas autoridades cubanas. É estranho que tenham publicado uma coisa e que depois essa mesma coisa seja desmentida pelo governo - comentou Blanca, que também mora na Espanha com o marido, Raúl Rivero, desde 2005.

Os dois se mostraram satisfeitos com sua recepção nos países latino-americanos. O objetivo da viagem, explicou Blanca, "é lutar pela democracia cubana, mas lutar em paz. Queremos terminar com 50 anos de ditadura".

- No Uruguai nos reunimos com o presidente Mujica e em todos os países nos escutaram - assegurou Blanca.

Com agências internacionais