Título: Quando os telespectadores viram eleitores
Autor:
Fonte: O Globo, 14/09/2010, O País, p. 14

Jornalista Ana Amélia Lemos é a líder das intenções de voto para o Senado no Rio Grande do Sul

BRASÍLIA. Por 31 anos, a jornalista Ana Amélia Lemos frequentou a casa dos gaúchos com comentários diários na TV, direto de Brasília, sobre política, economia, agricultura. Agora líder nas intenções de voto para o Senado, ela é o fato novo da eleição no Rio Grande do Sul.

Lançada pelo Partido Progressista (PP), vem arrebanhando apoios em todos os segmentos do eleitorado, da esquerda à direita, mesmo concorrendo com veteranos como o ex-governador Germano Rigotto (PMDB) e o senador Paulo Paim (PT).

Na última pesquisa Datafolha, divulgada no fim de semana, Ana Amélia tinha 44% das intenções de voto, contra 42% de Rigotto e 38% de Paim. Mantido esse quadro, Rigotto e Paim disputarão voto a voto a segunda vaga para o Senado, e Ana Amélia ficará com a primeira vaga.

Na tarde de ontem, a jornalista de 65 anos reservou uns poucos minutos na sua agenda para arrumar o cabelo num salão de Porto Alegre. O esforço para conciliar o cuidado com a aparência, sempre impecável, e o ritmo da campanha ¿ ela já percorreu quase 50 mil quilômetros em mais de 200 municípios gaúchos ¿ não foi em vão. No salão, conquistou mais eleitores, clientes que a reconheceram e declararam o voto.

¿ As pessoas me abraçam como se eu fosse uma pessoa da casa. Há um vínculo afetivo ¿ diz Ana Amélia.

Em Brasília desde o início da década de 80, a jornalista nunca cortou vínculos com o Rio Grande do Sul. Ao contrário, tornou-se uma espécie de embaixadora em defesa dos interesses do estado, contando com espaço diário nos veículos do grupo RBS. Precursora do conceito de multimídia, ela entrou na casa dos gaúchos por três décadas, por meio de rádio, TV e do jornal ¿Zero Hora¿: ¿ Os gaúchos sabem avaliar, julgam bem, e estou sendo julgada por meu trabalho, ligado aos interesses do estado.

Tendo criticado tanto coisas erradas da política, eles acreditam que não vou cometer os erros que criticava.

Outra vantagem da jornalista são a desenvoltura e o conhecimento técnico de televisão, combinados com quatro minutos no horário eleitoral, tempo confortável para um candidato ao Senado.

Para traduzir em linguagem acessível suas críticas sobre a divisão das receitas entre União, estados e municípios, por exemplo, Ana Amélia repartiu um bolo no programa eleitoral.

¿ Um gráfico é muito frio e seria entendido por poucos.

O bolo mostrou que a União fica com a maior fatia, 60%, e os municípios, só com 15%. É uma divisão desigual, distorção tão aguda que não é boa para a democracia.

Falando a linguagem que os gaúchos entendem e com propostas que apreciam, a jornalista vai angariando apoios. Ontem, contou que tem recebido demandas dos aposentados e pretende dar atenção ao segmento, caso eleita. Uma de suas bandeiras é melhorar o valor das aposentadorias.

E buscar alternativa ao fator previdenciário, bandeira de Paim, que pode não voltar a Brasília.

¿ Não tem problema defender propostas que já estão em andamento, desde que atendam aos interesses do estado, neste caso, dos aposentados.