Título: Para Dutra, Dilma não responde por episódio
Autor: Freire, Flávio; Vasconcelos, Adriana
Fonte: O Globo, 14/09/2010, O País, p. 12

Presidente do PT diz que explicações cabem a Erenice e que advogado não será afastado da campanha

FORTALEZA e SÃO PAULO. O presidente do PT, José Eduardo Dutra, disse ontem em Fortaleza que a candidata Dilma Rousseff mantém a confiança na ministra da Casa Civil, Erenice Guerra. Mas, numa clara tentativa de blindar a candidata, Dutra afirmou que a ministra, que foi braço-direito de Dilma até sucedê-la no ministério, não poderá ser responsabilizada caso fiquem comprovadas as denúncias de tráfico de influência envolvendo Israel Guerra, filho dela.

¿ A Dilma não tem que responder sobre eventos nos quais não tem participação.

Ela não está mais no governo.

Cabe à ministra dar todas as explicações necessárias, e cabe aos órgãos do governo, como a CGU, apurar ¿ disse Dutra, um dos coordenadores da campanha de Dilma, em entrevista coletiva. ¿ O que ela tem que dizer, como foi dito, é que ela tem, até este momento, confiança na Erenice.

Segundo Dutra, se ficar provado envolvimento do filho de Erenice no episódio, ¿não significa também que ela, Erenice, tenha culpa¿. Dutra afirmou ainda que não se trata de uma ¿questão de (assumir) bônus e ônus¿ do governo. Segundo ele, não cabe a Dilma apurar as acusações.

Para ele, as denúncias envolvendo Erenice e parentes não são ¿consistentes¿, mas se houver ¿elemento consistente¿ que prove o envolvimento de Erenice, o governo tomará as medidas cabíveis, como exoneração.

Dutra afirmou ainda que Márcio Silva, advogado do PT no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e sócio de um escritório de advocacia contratado sem licitação por uma empresa pública à época dirigida por uma irmã de Erenice Guerra, não será afastado da campanha.

¿ Não há nenhuma denúncia contra ele. Vamos lembrar que, quando você contrata um escritório para campanha eleitoral, você não pergunta quais os outros clientes que o escritório tem.

Dilma usará bota ortopédica por uma semana Em encontro ontem com a Confederação Israelita do Brasil (Conib), Dilma se recusou a falar mais sobre as denúncias de tráfico de influência. A candidata foi à reunião usando uma bota ortopédica, devido a uma torção no pé direito ocorrida em um acidente ao descer da esteira onde se exercitava pela manhã.

¿ Três ligamentos foram moderadamente afetados.

Não doeu muito, só na hora.

Estou com medo de estar inchando ¿ disse ela, que deve usar a bota por uma semana.

Bem-humorada, apesar do acidente e do tenso debate na véspera, Dilma defendeu as relações diplomáticas do país com o Irã, estratégia que, segundo ela, promove a paz mundial ao evitar o isolamento internacional e risco de invasão militar. A petista, porém, deixou claro que repudia a atitude do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, de negar o Holocausto, e da ocorrência de apedrejamentos de mulheres naquele país.

¿ Nossa relação com o Irã é uma relação em busca da paz.

Nem é uma relação em que você autoriza ou aceita a negação do Holocausto. Nem eu nem o presidente Lula achamos admissível a negação do Holocausto. É um fato histórico, ocorreu. Foi uma barbárie.

¿ disse Dilma, em entrevista após o encontro. ¿ Outra coisa diferente é que o Brasil tem relações com vários países.

No caso do Irã, nós defendemos que a melhor estratégia não é a guerra e o isolamento, ou tentar resolver pelo método do Iraque ou Afeganistão.

Nós defendemos o diálogo.