Título: Causas da estagnação do país no mundo
Autor:
Fonte: O Globo, 12/09/2010, Opinião, p. 6
É conhecido o mau posicionamento do Brasil nos diversos rankings mundiais de competitividade. Nos últimos dias foi divulgado mais um, o do Fórum Econômico Mundial, com o cenário de sempre: apesar de terem sido detectados avanços na capacidade gerencial das empresas, assim como na macroeconomia e no mercado financeiro, o país caiu duas posições em relação a 2009, ficando em 58olugar, numa relação de 139 países, liderada pela Suíça e com o Chade em último. À frente do Brasil estão, por exemplo, Índia, Itália, Chile e China.
Mesmo sem ser novidade, deve-se destacar esta grave deficiência brasileira, mais ainda numa campanha eleitoral, momento indicado para se debater o assunto. Só assim é possível ajudar na criação da consciência de que há muito a fazer para o Brasil conquistar espaços no mundo globalizado, e não apenas por meio da exportação de matérias-primas. A dificuldade de o Brasil se tornar mais competitivo se reflete na posição inferiorizada que tem o país no PIB e no comércio mundiais.
Apesar de todo o ufanismo interno, amplificado por um governo voltado para eleger o sucessor de Lula, o fato é que o crescimento dos últimos anos, alardeado entre fanfarras, não foi capaz de aumentar o peso do Brasil na produção mundial ao contrário, ele caiu, entre 1995 e 2009, de 3,1% para 2,9%, segundo o Financial Times , enquanto as exportações se encontram estacionadas na faixa de 1%.
A avaliação de diversos itens feita pela pesquisa indica algumas das fragilidades brasileiras: em ensino superior e treinamento, o país, de 2009 para 2010, ficou na 58aposição; em eficiência do mercado de trabalho, passou de 80opara 96olugar; e em saúde e educação primária, de 79opara 87o. Ficou mais próximo do Chade.
Confirmam-se as fragilidades no ensino e treinamento, na gestão do SUS e num mercado de trabalho engessado por regras anacrônicas. Há inúmeras evidências desses pontos negativos. Uma delas, a crescente falta de mão de obra especializada, à medida que a economia consolida a recuperação do impacto da crise mundial de fins de 2008. Outra, apesar de sucessivos trimestres com taxas positivas de evolução do PIB: a permanência de 40% do mercado de trabalho na informalidade. Já foi pior, mas a formalização não avança com a velocidade desejada, presa no atoleiro dos custos elevados da CLT para o empregador. Há medidas a tomar no campo tributário e na política de gastos públicos pa-ra um ataque eficiente às mazelas que impedem o país de crescer a longo prazo acima da média mundial. O elevado peso da carga tributária é uma das amarras. A prioridade concedida, apesar dos discursos em contrário, às despesas correntes, em detrimento dos investimentos em infraestrutura, é outra causa da baixa competitividade brasileira.
Também existem ações de ordem prática, destinadas a facilitar a vida de empreendedores pessoas físicas e jurídicas, de grande efeito na geração de negócios, renda e emprego.
A desburocratização das exportações de baixo valor serve de bom exemplo. Até a Índia, conhecida pelo seu Estado paquidérmico, aparece no ranking em posição melhor que o Brasil.
Deveria existir um programa de governo, com a definição de metas, para aumentar a agilidade do país na crescente competição em escala planetária. A realidade comprova que discurso só de nada adianta.