Título: Um líder preso no pântano
Autor:
Fonte: O Globo, 16/09/2010, O Mundo, p. 32
Sarkozy tenta se salvar após sucessão de medidas impopulares na Presidência
PROTESTO CONTRA a reforma da Previdência: estratégia polêmica
Luisa Corradini
Prisioneiro de escândalos políticos, de uma imagem internacional que se deteriora em um ritmo vertiginoso, cercado pelas tensões sociais e obrigado a adotar um plano de ajuste que aumenta sua impopularidade, o presidente Nicolas Sarkozy lembra um homem preso num pântano: cada esforço para sair acaba afundando-o cada vez mais.
Essa sucessão de atrasos e erros começou em meados de julho, com a decisão de eliminar 300 acampamentos de imigrantes ilegais e de expulsar os ciganos para seus países de origem, na Europa Oriental. Com o gesto, qualificado por unanimidade de racista e xenófobo, Sarkozy esperava recuperar a confiança dos eleitores de extrema-direita, decepcionados com o fracasso no cumprimento da maioria das promessas feitas há três anos, durante a campanha.
Este setor da população é o que hoje exige mais na luta contra a insegurança. No imaginário popular, os responsáveis pelo clima de violência que rodeia o país ¿ embora as estatísticas desmintam ¿ são as populações de imigrantes que vivem na periferia das grandes cidades, e os imigrantes ilegais que chegaram à França nos últimos anos, especialmente os ciganos.
Esse fanatismo típico de um recém-convertido não deixa de ser paradoxal, levando em consideração que Sarkozy, filho de um imigrante húngaro que conquistou a nobreza, é aparentemente de origem cigana e foi casado por muitos anos com Cecilia Ciganer, de ascendência cigana.
De qualquer forma, o presidente acreditou que, multiplicando gestos populistas em matéria de segurança, poderia colocar panos quentes sobre os danos causados pelo escândalo L¿ Oréal (que envolve a herdeira e bilionária Liliane Bettencourt). Por trás de uma batalha incansável pela herança da mulher mais rica da França, começam a aparecer o esboço de um tráfico de influências no ápice de seu poder, o financiamento ilegal do partido do governo e a obstrução da Justiça. Essa sórdida história veio a público no momento menos oportuno, já que o principal envolvido, Eric Woerth, era o ministro responsável pelas negociações com sindicatos e pela reforma da Previdência. O texto foi aprovado pela Câmara dos Deputados, mas nada indica que ele será aprovado no Senado.
O novo escândalo de espionagem contra o jornal ¿Le Monde¿, que eclodiu no início da semana, ameaça complicar (a situação do presidente) ainda mais. À primeira vista, Sarkozy aparece como responsável por dar a ordem: na França, nenhum funcionário se atreveria a espionar um jornalista e um funcionário do alto escalão do Ministério da Justiça sem consultar o Palácio do Eliseu. Mas esse episódio mostra o nervosismo de um poder que perde o respeito e termina apelando aos piores recursos da política.
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