Título: Papa se diz envergonhado por padres pedófilos
Autor: Duarte, Fernando
Fonte: O Globo, 19/09/2010, O Mundo, p. 40

Bento XVI faz o mais veemente pedido de desculpas e tem encontro reservado com vítimas de abusos sexuais

O PAPA olha um bebê durante vigília pela beatificação do cardeal John Newman; ao lado, um protesto contra a visita toma as ruas de Londres

No programa da visita do Papa Bento XVI ao Reino Unido, a missa matutina de ontem na Catedral de Westminster não ocupava grande destaque. Foi na missa, porém, que o Pontífice fez ontem o mais veemente mea-culpa da Igreja Católica sobre o escândalo dos abusos sexuais cometidos por sacerdotes. Em seu sermão, Bento XVI disse que os episódios de pedofilia trouxeram ¿vergonha e humilhação¿ para ele e toda a Igreja Católica. O Papa demonstrou ainda preocupação com as sequelas provocadas nas vítimas.

¿ Penso no imenso sofrimento causado pelo abuso de menores, especialmente pelos ministros da Igreja. Quero manifestar meu profundo pesar às vítimas inocentes destes crimes atrozes, junto com minha esperança de que o poder da graça de Cristo e seu sacrifício de reconciliação trarão a cura profunda e a paz para suas vidas ¿ disse o Papa, que, anteriormente, havia se referido aos casos de pedofilia como pecados, não crimes. ¿ Também reconheço a vergonha e humilhação que todos sofremos por causa destes pecados ¿ completou.

Para vítimas, palavras apenas não bastam

Cerca de meia hora após a missa, Bento XVI teve chance de repetir suas palavras diretamente para um grupo de cinco vítimas de padres pedófilos, num encontro sigiloso na Nunciatura Apostólica de Londres, cuja ocorrência a assessoria do Pontífice inicialmente tentou negar.

O encontro não fazia parte da programação original da visita de quatro dias e teria sido incluído em cima da hora como forma de arrefecer os ânimos dos britânicos. Pesquisas de opinião mostraram profunda desaprovação à visita.

No encontro com as vítimas, que durou 40 minutos, o Papa afirmou estar empenhado na campanha para que nenhuma outra criança sofra abusos por parte de clérigos. Mais tarde, a assessoria do Papa informou, por meio de um comunicado oficial, que o Pontífice teria ficado emocionado com as histórias das vítimas.

¿O Santo Padre rezou com elas e as assegurou de que a Igreja Católica está fazendo o possível para entregar à Justiça os religiosos acusados destes crimes gravíssimos¿, informou o comunicado.

O pedido de desculpas, porém, não evitou que o Papa ontem enfrentasse as maiores manifestações de protesto em solo britânico: de acordo com cálculos da polícia, cerca de dez mil pessoas marcharam pelo centro de Londres com faixas e cartazes criticando a leniência da Igreja Católica na punição dos abusos, mas também se concentrando em posições dogmáticas como a condenação ao uso de métodos anticoncepcionais e ao homossexualismo.

Houve diversos discursos, incluindo o de Sue Cox, de 63 anos, que quando criança sofreu abusos sexuais de um padre:

¿ Tudo o que vivenciei na Igreja Católica foi medo, vergonha, mentiras e repugnância. O Vaticano não poderá mais fechar os olhos para esse escândalo, pois estaremos sempre pressionando!

Em nota divulgada ontem, Peter Isely, integrante da Rede de Sobreviventes do Abuso por Padres, sustentou: ¿Não precisamos de um Papa que fique triste com os crimes. Precisamos de um Papa que previna estes crimes. As palavras dele não previnem nada.¿

Mas o ápice dos protestos, que incluíram um ato em frente à residência oficial do primeiro-ministro, em Downing Street, foi o pronunciamento do cientista e escritor Richard Dawkins, um notório defensor do ateísmo. Dawkins, que no início do ano ameaçara entrar com um processo criminal contra o Papa durante a visita, chamou Bento XVI de inimigo da Humanidade. Em alguns momentos houve ameaça de confronto entre manifestantes e fiéis, mas a polícia agiu rapidamente.

Apesar de ameaça de atentado, agenda é mantida

O dia, que além da missa teve um encontro com o premier David Cameron e uma visita a um asilo católico no sul de Londres, terminou com uma vigília no Hyde Park, da qual participaram cerca de 80 mil pessoas.

Hoje, no último dia da visita, Bento XVI estará em Birmingham, onde rezará uma missa campal durante a qual ocorrerá também a beatificação do cardeal John Newman, líder religioso que ficou famoso por se converter do anglicismo para o catolicismo no século XIX e lutar contra a intolerância religiosa no Reino

O Papa não mudou a agenda mesmo depois da prisão de seis suspeitos de estarem planejando atentado contra ele na sexta-feira. Segundo informações ainda não confirmadas, todos seriam argelinos. A polícia vasculhou oito residências e dois estabelecimentos comerciais, além de mudar o esquema de segurança da visita.