Título: O comunista Netinho, fenômeno em SP
Autor: Scofield Jr., Gilberto
Fonte: O Globo, 19/09/2010, O País, p. 17

Explorando sua celebridade, cantor de pagode passa Marta Suplicy na disputa pelo Senado, mesmo com denúncias

CARAPICUÍBA (SP) e SÃO PAULO.

Desde que, semana passada, a pesquisa do Datafolha mostrou o cantor de pagode e ex-apresentador de TV Netinho de Paula (PCdoB), de 40 anos, na liderança das intenções de voto para o Senado em São Paulo ele tem 36%, contra 35% de Marta Suplicy (PT) e 21% de Romeu Tuma (PTB) , a cúpula de sua campanha iniciou uma estratégia que privilegia o Netinho sambista, apresentador e celebridade, no corpo a corpo das ruas, enquanto suspende entrevistas individuais e debates do candidato ao Senado José de Paula Neto, seu nome de batismo.

Nos comícios na periferia da capital e em cidades do interior muitos ao lado dos companheiros petistas de coligação Aloizio Mercadante e Marta Suplicy , Netinho reina absoluto diante de uma plateia que é mais fã que eleitora. E que se identifica com a trajetória de menino pobre, ex-vendedor de balas nos trens suburbanos, exmorador do conjunto habitacional de baixa renda Cohab 2 em Carapicuíba (município distante 28 quilômetros do Centro de São Paulo) que enriqueceu cantando pagodes sobre a periferia.

São músicas como Cohab City e Tanajura, primeiro na banda Negritude Júnior e, a partir de 2001, em carreira solo. A cidade sedia a ONG Instituto Casa da Gente, fundada há 12 anos por ele e parceiros do Negritude, que oferece atividades como cursos de arte e computação a cerca de mil crianças carentes.

São R$ 150 mil de despesas anuais, cobertas pela prefeitura e doações de pequenas empresas da região (sem contar doações materiais) e de Netinho, que destina à entidade a renda de dois shows por ano.

Se não fosse ele, Carapicuíba não teria a atenção do poder público e da mídia que tem hoje diz a doméstica Lúcia (sobrenome não revelado), moradora de um dos conjuntos habitacionais que cercam o Restaurante Carolina, um dos primeiros palcos, em 1986, da banda Negritude Júnior. Ele está presente na comunidade.

Mas a ascensão de Netinho expôs o lado vulnerável do político iniciante: um vereador que se elegeu em 2008 como terceiro mais votado (84.406 votos), mas de trajetória inexpressiva. Apesar de ter apresentado bons projetos em educação e na área de infância e adolescência, segundo as ONGs Transparência Brasil e Voto Consciente, é dos que menos comparecem às comissões, votações e discussões.

É um comunista às turras com seu patrimônio (mora numa casa de 2 mil metros quadrados num condomínio de ricaços em Alphaville, avaliada em mais de R$ 2 milhões, que sumiu de sua declaração de bens na Justiça Eleitoral) e um dos poucos políticos que viu seu patrimônio diminuir: de R$ 1,3 milhão declarados em 2008 para R$ 192,6 mil este ano (queda de 86%).

Ele usa a comunidade para seu projeto pessoal diz Saadi, um jornaleiro de Carapicuíba. E tem uma vida cheia de escândalos, que mostram o que ele é.

Agressão à ex-mulher é lembrada por adversários Os opositores não passam um dia sem lembrar um episódio do qual o cantor já se desculpou um sem-número de vezes: a agressão, em 2005, à ex-mulher Sandra Crunfli, resolvida com um acordo na Justiça. Ou o soco, na festa de entrega do Troféu Raça Negra, em 2005, no apresentador Rodrigo Scarpa, do Pânico na TV, após uma pergunta maliciosa resolvido na Justiça com uma indenização.

Quem bate em mulher é covarde diz o candidato Aloysio Nunes Ferreira (PSDB), prometendo defender os direitos das mulheres.

Outro caso a parar na Justiça (Trabalhista) foi a separação de Netinho da banda. No site do Negritude Júnior, o cantor é acusado de lucrar com contratos fechados à revelia dos demais. Outros contratos foram firmados e nem chegaram ao conhecimento do grupo, diz Chamburcy, integrante da banda.

Na reta final da campanha, Netinho lembra o trabalho de apresentador na rede Record e no SBT para cobrar mais participação dos negros na TV e na política, ressaltando seu slogan Vote no Negão. Gosta de dizer que cursa sociologia na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo.

Mas a ansiedade provoca escorregões, como quando usou o site da campanha para dar ingressos para seu show, manobra denunciada pela oposição à Justiça Eleitoral.