Título: Governo reforça seu interesse em decidir os rumos e o comando da Vale
Autor: Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 22/09/2010, Economia, p. 27
Planalto já teria acordo informal para o caso de trocar presidente da empresa
BRASÍLIA. O desejo de comandar a Vale, a maior empresa privada do país, continua forte no governo federal. Segundo fontes ligadas ao Palácio do Planalto, a permanência de Roger Agnelli à frente da companhia seu mandato termina em meados de 2011 vai depender da disposição do executivo de seguir as estratégias traçadas em Brasília, na hipótese de uma vitória da candidata petista. A orientação do presidente Lula é fazer a Vale investir em siderurgia, siderurgia, siderurgia, para usar as palavras de um ministro em recente encontro com Agnelli.
No entender do governo, assim como Petrobras e Eletrobras, a Vale tem um papel fundamental no desenvolvimento do país: deve reduzir a dependência do país da exportação de commodities, com investimento na produção de aço (de maior valor agregado).
Além disso, o porte de seus empreendimentos tem o poder de girar a economia local, criando polos industriais com geração de emprego e renda.
A Vale estaria inserida num projeto de desenvolvimento que inclui a exploração do présal e a construção de hidrelétricas gigantes, como as da região amazônica.
Na crise global, demissões causaram descontentamento De acordo com fontes do governo, a situação de Agnelli hoje está indefinida. O executivo, egresso do Bradesco, está no cargo desde 2001 e seu futuro dependerá de um acordo de acionistas e da capacidade de se alinhar ao projeto do governo.
O Bradesco tem 21,21% da Valepar, holding que controla a Vale, com 53,5% das ações ordinárias (com direito a voto) da mineradora. Os outros acionistas são a japonesa Mitsui (18,24%) e a Litel (49%) que reúne fundos de pensão como Previ, do Banco do Brasil, e Petros, da Petrobras e a BNDESpar (11,51%). Como o acordo de acionistas da Valepar exige um mínimo de 67% dos votos dos controladores para destituir o presidente da Vale, o governo sozinho não pode implementar qualquer mudança.
Somando as participações da Litel e do BNDESpar, ele teria 61,51% dos votos. O acordo foi firmado na época da privatização da Vale, em 1997.
O Palácio do Planalto já teria um entendimento informal com o Bradesco caso ache conveniente não manter Agnelli na Vale num eventual governo Dilma Rousseff. O nome a ser indicado em 2011 deve permanecer à frente da companhia até 2017.
Tem uma sintonia entre governo e Bradesco afirmou ontem ao GLOBO um ministro.
Desde que a crise global eclodiu, houve vários pontos de desgaste entre Agnelli e o Planalto.
Em dezembro de 2008, ele defendeu mudanças na legislação trabalhista para que as empresas se ajustassem à crise. Em janeiro de 2009, Lula ficou sabendo da demissão de dois mil trabalhadores da Vale por jornalistas, em viagem ao Oriente Médio.
Na época, coube a Lázaro Brandão, do Conselho do Bradesco, ser o fiador da permanência de Agnelli no cargo. Mas o incômodo permaneceu, com a demissão de Demian Fiocca, exbraço direito do ministro Guido Mantega, da diretoria da Vale em abril daquele ano.
Nos últimos meses, Agnelli vem buscando se reaproximar de Lula. O projeto de R$ 5,8 bilhões da Aços Laminados do Pará saiu do papel e o presidente esteve em Marabá para, ao lado de Agnelli, conhecer o terreno da futura siderúrgica. No último dia 15, voltaram a se encontrar, no Planalto. Agnelli fez um balanço da atuação da Vale desde 2003, com investimentos de US$ 80 bilhões, 70% deles no Brasil.
COLABOROU Gustavo Paul