Título: Irã desmente suposta sentença sobre Sakineh
Autor: Godoy, Fernanda
Fonte: O Globo, 29/09/2010, O Mundo, p. 33

Chancelaria garante que processo judicial ainda não terminou, e Amorim faz nova intervenção junto a ministro

NOVA YORK. Enquanto em Teerã autoridades iranianas se contradizem sobre a sentença final de Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por adultério e pelo suposto assassinato do marido, o governo brasileiro voltou a interceder no caso. O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, conversou ontem com o chanceler iraniano, Manouchehr Mottaki, e enfatizou a posição contrária do Brasil à pena de morte. Segundo o ministro, o processo ainda não foi finalizado e, portanto, não se pode afirmar com certeza qual será o destino da condenada.

- O que ele (Mottaki) me disse é que o caso não está finalizado. Ainda há um processo judicial que pode estar em andamento. Ainda há várias instâncias. O que eu deduzo, embora ele não tenha dito claramente, é que aquela hipótese de apedrejamento estaria afastada, porque aquele julgamento ficou superado por outros - afirmou Amorim.

O ministro disse não ter entrado em detalhes sobre o modo de execução - apedrejamento ou enforcamento:

- O Brasil é contra a pena de morte. Infelizmente há milhares de penas de morte acontecendo no mundo inteiro. Mas eles sabem do nosso interesse específico pelo caso da senhora Sakineh, aliás o próprio presidente (Mahmoud) Ahmadinejad tomou a iniciativa de falar nesse assunto no nosso encontro de sexta-feira passada, de modo que demonstra um respeito pelo nosso interesse.

Ministro destaca avanços na questão nuclear

Ontem, as declarações do porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Ramin Mehmanparast, dando conta de que ainda não há uma decisão final sobre a sentença de Sakineh causaram controvérsia - um dia depois de o procurador-geral iraniano, Gholam Hussein Mohseni, ter garantido, numa entrevista coletiva, que a mulher, de 43 anos, seria executada por enforcamento. Tenso diante das contradições, o filho de Sakineh, Sajad Ghaderzade, de 22 anos, voltou a apelar, numa carta, às Nações Unidas e à União Europeia pelo destino de sua mãe.

Além de monitorar o desfecho do caso, Amorim também conversou com Mottaki sobre o andamento das negociações acerca do chamado dossiê nuclear iraniano, e afirmou que há avanços. Ele citou o agendamento de uma reunião entre altos funcionários da União Europeia e do governo iraniano e, mais tarde, ainda sem data definida, uma reunião do P5 + 1 (EUA, Rússia, China, França, Reino Unido e Alemanha):

- O importante é conversar. É muito importante que esse dossiê nuclear evolua.

O ministro encerra hoje dez dias de permanência em Nova York, onde discursou na abertura da Assembleia Geral da ONU e se reuniu com dezenas de líderes políticos e diplomatas. Ele voltou a falar no movimento pela reforma do Conselho de Segurança da ONU, mas rejeitou a ideia de que uma vaga permanente seja uma demanda do Brasil.

- Não se trata de o Brasil querer um lugar no Conselho de Segurança da ONU. O Brasil acha que pode contribuir, sim. Muitos outros países acham que o Brasil pode contribuir e querem o envolvimento do Brasil. A busca pelo Brasil aumentou muito: países do Oriente Médio, da Ásia Central, dos Bálcãs, africanos - avaliou Amorim.

O chanceler destacou, no entanto, que não sabe como nem quando haverá uma reforma do Conselho de Segurança:

- Mas algum dia vai ter que acontecer. Não é possível um conselho com cinco membros permanentes, em que as decisões são negociadas entre eles, muitas vezes até em trocas de outras vantagens ou isenções, isso não é bom para o mundo. Haver uma diversidade é melhor. E quando você pensa na diversidade, o nome do Brasil vem à mente de qualquer um.

Com agências internacionais