Título: Em PE, o agravante das enchentes
Autor: Herdy, Thiago
Fonte: O Globo, 26/09/2010, O País, p. 17

BR-101 une falta de conservação a trechos destruídos pelas chuvas de junho

PALMARES (PE). Na BR-101, uma das principais rodovias que cortam Pernambuco, a má qualidade de seus serviços transformouse em unanimidade. Empresas transportadoras e motoristas a apontam como uma das piores e mais inseguras do Nordeste.

Os problemas são muitos: conservação da pista no interior e na Região Metropolitana, atraso em obras de duplicação e morosidade na recuperação dos trechos destruídos pelas enchentes de junho.

Com 232 quilômetros, a BR101 transformou-se na recordista de acidentes. Só este ano, foram 2.164 registros, com 901 mortos e 86 feridos, segundo a Polícia Rodoviária Federal. Para se ter uma ideia do que isso representa, a BR-232 possui mais de 500 quilômetros, e no mesmo período registrou 1.220 acidentes, com 807 feridos e 85 mortos.

A BR-101 e a BR-232 são as duas rodovias mais movimentadas do estado, mas a segunda já foi duplicada até Caruaru, a 130 quilômetros da capital, e os motoristas não reclamam do seu estado. O mesmo, no entanto, não ocorre com a BR-101, que possui inclusive um trecho urbano na divisa entre Recife e Jaboatão dos Guararapes , no qual é fácil encontrar ferragens expostas no cimento da pista, e onde não há passarelas suficientes para pedestres.

O Dnit considera a BR-101 uma das mais problemáticas.

Os caminhoneiros ratificam: Há um mês, estava levando um carregamento para a Ceasa (Companhia Estadual de Abastecimento) e por pouco não virei.

Havia chovido, e a água na pista me confundiu. Tinha um grande buraco, faltou pouco para tombar disse o motorista Rildo Gomes, que mora em Esplanada, na Bahia, e roda três mil quilômetros por semana transportando laranjas.

Na última quinta-feira, por pouco não ocorreram dois acidentes na BR-101, entre os municípios de Palmares e Xexéu, na zona da mata de Pernambuco.

Em menos de meia hora, a equipe do GLOBO assistiu a um caminhão de combustível ir bruscamente para o acostamento, para não colidir com o que vinha em sentido contrário. Depois, uma carreta por pouco não bateu em um ônibus escolar carregado de estudantes. Os desvios bruscos são feitos em cima de uma curva fechada, para se livrar de buracos.

O lavrador Pedro Manoel Delmiro, de 45 anos, morador do engenho Caprichinho, diz que à noite não dorme, com o barulho dos freios de automóveis na pista, a 135 quilômetros de Recife, perto da divisa com Alagoas.

O problema de conservação da BR-101 é grave. Para completar, há os danos provocados pelas enchentes. Hoje, para seguir para Alagoas, é preciso usar a BR-232 e a 104, o que aumenta em quase uma hora o percurso.

O custo também fica maior para as transportadoras reclama Antônio Jacarandá Gaspar de Oliveira, presidente do Sindicato de Empresas de Transporte de Carga de Pernambuco.

Esta semana, até a prefeitura de Palmares baixou decreto proibindo o tráfego de caminhões com mais de sete toneladas de carga na única ponte que dá acesso a Alagoas.

Na BR-101, muitos trechos estão sem sinalização horizontal, falta acostamento em muitos outros e há áreas onde ainda há acúmulo de entulhos das enchentes. Cerca de 35 mil veículos trafegam diariamente pela rodovia. Segundo o Dnit, o maior desafio é o chamado Contorno do Recife, que exige investimentos de R$ 150 milhões.

O projeto já foi aprovado em Brasília, mas a licitação ainda não foi realizada.

Sempre exaltada pelo presidente Lula como a rodovia do turismo ela margeia o litoral nordestino , a BR-101 vem sendo duplicada, mas a implantação dos três lotes no estado está atrasada. O trecho duplicado já deveria ter sido inaugurado em dezembro de 2009.

O Dnit informou que, dos 2.050 quilômetros de rodovias federais, 1.378 são objeto do projeto Crema (Contrato de Restauração e Manutenção), no qual estão previstos investimentos de R$ 230 milhões em dois anos.

Não disse, porém, como está o cumprimento do cronograma