Título: As vidas que ficam pelo caminho das estradas
Autor: Herdy, Thiago
Fonte: O Globo, 26/09/2010, O País, p. 17
Só nos seis primeiros meses deste ano, já morreram 4.067 pessoas em acidentes em rodovias do país
BELO HORIZONTE e CAETÉ (MG).
Quem assumir em 1ode janeiro o cargo de presidente do Brasil terá pela frente um desafio que habita os discursos no período pré-eleitoral, mas que, nos anos seguintes, esbarra na burocracia e na falta de vontade política.
Do avião presidencial, o chefe do Executivo passa ao largo da tragédia das estradas brasileiras, onde morreram 4.067 pessoas apenas nos seis primeiros meses deste ano, de acordo com o Dnit. É como se, a cada semana, caísse um Boeing 737 no país e todos os passageiros morressem.
Os 311 quilômetros que separam Belo Horizonte de Governador Valadares pela BR-381, em Minas Gerais, são considerados os piores do estado, que hoje contabiliza o maior número de mortes em suas estradas federais (471 apenas nos seis primeiros meses de 2010). Com mais de 500 curvas quase metade delas no trecho de pouco mais de cem quilômetros entre a capital mineira e João Monlevade, conhecido como Rodovia da Morte , a pista ainda segue o mesmo trajeto do tempo em que era usada para o transporte de burros. Apenas no ano passado, o trecho mais crítico da rodovia foi palco de 2,1 mil acidentes, que resultaram em 1,4 mil feridos e 81 mortos no asfalto.
Todas as vezes em que passo pela 381, fico arrepiado porque tenho medo. A gente nunca sabe se vai chegar em casa com segurança. São tantas curvas, que não há como não ficar tenso ao imaginar uma carreta perdendo o controle e vindo para cima de você conta o técnico em segurança Lúcio Mário Filho, de 35 anos, morador de Caeté, Região Metropolitana de BH, cujo principal acesso é pela BR-381.
Há pouco mais de um ano, Lúcio Mário mantém um blog (www.br381.org) onde reúne informações publicadas em sites noticiosos a respeito dos acidentes na Rodovia da Morte. Ele começou a fazer isso depois da morte do amigo Albert Silva Syrio, de 23 anos, em um acidente em março de 2009. Albert estava em uma van com outros 15 universitários de Caeté, que voltavam para casa após estudar em Belo Horizonte. A van em que estavam foi esmagada por um caminhão carregado de vergalhões.
Além do motorista do veículo, seis jovens entre 19 e 28 anos morreram.
O blog é uma forma de protesto permanente. A gente nunca sabe a que horas pode acontecer um acidente, nem com quem. Pode ser um irmão, pai, familiar, vizinho. Não quero ficar passivo em uma situação dessas explica Lúcio Mário, que atualiza o blog todas as noites, quando chega em casa do trabalho.
O último levantamento da Confederação Nacional dos Transportes (CNT) abrange 90,9 mil quilômetros de rodovias e mostra que 58,8% das estradas estão em situação regular, ruim ou péssima. Dos 27 corredores identificados na pesquisa, só 12 estão em boas condições, e uma, em situação considerada ótima.
Todo dia 13, protesto contra falta de segurança Projeto executivo que prevê reconstrução completa da BR181, por R$ 2 bilhões, foi anunciado pelo governo federal às vésperas do fim do mandato do presidente Lula e incluído no Programa de Aceleração do Crescimento. O plano é, em três anos, construir 150 túneis, viadutos, pontes e passarelas para corrigir o traçado e dar mais segurança aos usuários. Pelo menos 218 quilômetros de nova rodovia deverão ser construídos.
Não tenho palavras para explicar o que sinto depois que perdi meu filho. Até hoje não acredito que tenha acontecido esse tipo de coisa. Porque o futuro que a gente tem no mundo são os nossos filhos, que deveriam ficar conta o mecânico aposentado Osvaldo de Pádua Santos, de 51 anos, que perdeu o filho de 20, estudante de computação, no acidente com a van.
Todo dia 13 de cada mês, Osvaldo e os parentes de outras vítimas da BR-381 vão à rodovia protestar contra a falta de segurança. Em 2009, o grupo lotou um ônibus e foi a Brasília pedir socorro ao governo federal. Foram recebidos por um representante do Ministério dos Transportes, que prometeu agilizar a instalação de radares e uma nova sinalização em caráter emergencial na rodovia. Nada foi feito até agora.