Título: Chavismo manobra, oposição confia
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Fonte: O Globo, 25/09/2010, Opinião, p. 6

Mais de 17 milhões de venezuelanos estão aptos a votar amanhã para eleger os 165 parlamentares da Assembleia Nacional, desde 2005 inteiramente dominada pelos chavistas ¿ naquele ano a oposição decidiu boicotar a eleição, tiro que saiu pela culatra.

O pleito ocorre num dos momentos mais difíceis para o coronel que tentou um golpe em 1992, mas só chegou ao poder, pelo voto, em 99, e dele espera não sair até a implantação do que chama de ¿socialismo do século XXI¿ ou ¿socialismo bolivariano¿. Sistema de vago embasamento teórico, mas contundente quando se trata de solapar as instituições democráticas e adotar mecanismos autoritários em todas as instâncias do poder, que emana do líder supremo.

E o momento é difícil, porque a popularidade de Chávez ¿ 35% ¿ está em seu ponto mais baixo diante da enxurrada de problemas que a população enfrenta, a começar por índices recordes de violência, reflexo do crescimento das desigualdades sociais. Em 2009, foram 140 assassinatos para cada cem mil habitantes no país, em comparação com 32 na Colômbia e nove em São Paulo. Caracas é hoje a capital mais perigosa do mundo. A inflação aflige os venezuelanos: foi de 25,1% em 2009 e este ano, até agosto, já estava em 19,9% ¿ uma das mais altas do mundo. Desabastecimento e cortes de energia são outro tormento no país de Chávez.

A oposição, que se apresenta mais organizada para o pleito de amanhã, tem dois objetivos básicos: impedir que o chavismo mantenha a atual maioria qualificada na Assembleia Nacional ¿ que lhe possibilita passar os projetos que bem entender ¿ e lutar para ter o maior número total de votos, o que aumentaria seu cacife político. Os partidos que lutam contra o chavismo estão reunidos na coalizão Mesa da Unidade (MUD). Fora dela está o Pátria para Todos (PTT), que se pretende uma alternativa às duas correntes.

Ninguém é tolo para descartar a força eleitoral do chavismo e as manobras do governo para assegurar a vitória. Por exemplo, Chávez ordenou uma redistribuição dos distritos eleitorais de forma a beneficiar seu partido, o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela), em detrimento da oposição. De cara, isto impede que a oposição faça maioria na AN, mas não que ela obtenha mais votos do que o governo. Ganha, mas não leva. Outro golpe baixo foi sufocar financeiramente os estados governados por políticos contrários ao governo.

O grande trunfo do chavismo continua sendo a gente mais pobre, para a qual canalizou inúmeros programas de assistência, e em nome da qual estatizou quase toda a economia venezuelana, com imensas perdas de eficiência e de escala. Ainda assim, não consegue evitar que muitos bastiões chavistas sejam atingidos por mazelas decorrentes da falta de investimentos em infraestrutura, como os apagões.

A Venezuela, um dos países mais ricos do continente ¿ dona de uma das maiores reservas mundiais de petróleo ¿ nos últimos 11 anos viu sua prosperidade despencar em nome de um projeto delirante e autoritário. O povo venezuelano pode começar a mudar isso a partir de amanhã. O resultado da eleição parlamentar deverá influir sobre o pleito presidencial de 2012.