Título: Roriz certamente manobrou para me excluir
Autor: Carvalho, Jailton de; Leali, Francisco
Fonte: O Globo, 01/10/2010, O País, p. 16

CARLOS AYRES BRITTO

O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ayres Britto garantiu ontem que não autorizou seu genro a procurar o ex-governador Joaquim Roriz, nem negociar seu voto. Pelo contrário, afirmou ter aconselhado o advogado a não atuar em processos no STF e que caberá a ele responder por seus atos.

O que o senhor tem a dizer sobre o vídeo da conversa de Roriz com seu genro?

CARLOS AYRES BRITTO: Vi o vídeo. Fiquei sabendo da notícia há uns 20 dias, de que Roriz tentou montar uma equipe e o Adriano (genro) foi procurado por um advogado de Roriz. Adriano foi à casa de Roriz, mas o contrato não foi assinado. Adriano me falou que o interesse do Roriz era contratá-lo para me impedir de votar. Ele deu sequência à conversa para disfarçar. Na medida que percebeu o que queria, deu sequência para cair fora e não aceitar. É o que o Adriano me disse.

No vídeo, Adriano deixa claro que a participação dele garantiria seu impedimento.

AYRES BRITTO: Não interpretei assim. Seria impossível determinar o meu impedimento. Se ele tivesse aceitado, e se tivesse assinado esse contrato escabroso, eu daria um jeito de permanecer nesse processo.

Há um trecho em que Adriano fala diretamente no seu impedimento.

AYRES BRITTO: Ele foi negociar uma oferta de trabalho. Adriano me disse que, quando caiu a ficha, entendeu que tinha que cair fora.

Adriano fala no preço do trabalho dele.

AYRES BRITTO: Mas isso não é o preço do ministro. Roriz já sabia que eu votaria contra. Então, certamente, manobrou para me excluir.

O senhor acha eticamente correto seu genro advogar no STF?

AYRES BRITTO: Não é ilegal, mas não acho correto. Já disse para ele para não advogar no STF.

Mesmo assim, ele foi negociar.

AYRES BRITTO: Falei com ele: Adriano você não deveria ter nem cogitado entrar nessa causa. Ele disse que recuou a tempo. É maior e capaz. Responde por seus atos.

O seu genro o avisou que queriam contratá-lo?

AYRES BRITTO: Ele me falou que estava sendo sondado. Falei: não aceite isso. Mas demorou uns dois dias para voltar e me dizer: desfiz o negócio. Abortei o contrato.