Título: Um ex-presidente precisa ficar no seu lugarzinho
Autor: Farah, Tatiana; Suwwan, Leila
Fonte: O Globo, 01/10/2010, O País, p. 11

Lula diz que não atrapalhará Dilma, mas sem deixar a política

BRASÍLIA. Em entrevista à versão online da revista britânica ¿The Economist¿, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva faz um balanço de seu governo. Já com tom de ex-presidente, diz ter certeza da vitória da candidata petista, Dilma Rousseff, e fala de sua preocupação em não atrapalhar a sucessora, após deixar o Palácio do Planalto. O presidente menciona também o seu alto índice de popularidade e descarta a possibilidade de que tamanho apoio possa dar origem a fenômeno semelhante ao que ocorreu no México, onde o Partido Revolucionário Institucional (PRI) passou décadas no poder.

¿Eu, ao eleger a presidenta Dilma, quero ter muito cuidado para que não haja da minha parte nenhuma intromissão em qualquer coisa que ela queira fazer¿, disse, na entrevista feita em 9 de setembro, e transcrita ontem em português pela Secretaria de Imprensa da Presidência.

Indagado sobre o que fará a partir de 2 de janeiro, disse que ainda não sabe exatamente, que pensa em permanecer no Brasil e tem vontade de usar sua experiência para ajudar sobretudo a África e a América Latina.

¿Eu tenho muito medo de tomar qualquer decisão precipitada, e depois de dois meses descobrir que não era aquilo que queria fazer. Então, um ex-presidente precisa ficar no seu lugarzinho, tranquilo, não dar palpite na política nacional, deixar quem foi eleita governar o país, errar, acertar, mas deixar governar o país, e depois de algum tempo, pensar no que fazer da vida. Eu sou um político, eu vou continuar fazendo política.¿

Lula disse que não existe a possibilidade de qualquer tentativa de perpetuação no poder:

¿Tenho certeza que ela (Dilma) respeitará cada fundamento da democracia como uma coisa sagrada, porque sabe que foi por conta da democracia que eu cheguei à Presidência e que ela vai ser a presidenta. Fora da democracia, eu não sei se nós teríamos chegado¿, disse. ¿A Dilma vai surpreender o mundo. Não existe hipótese de aqui ter uma coisa como o PRI. Aqui, a política é mais democrática. E a Dilma é tão democrática quanto eu, é tão socialista quanto eu e é tão responsável quanto eu.¿

Lula afirma que, entre suas frustrações, está não ter conseguido fazer a reforma política.

A entrevista faz parte de uma reportagem sobre as eleições. Num artigo, a revista afirma que ¿Lula deu ao Brasil continuidade e estabilidade. Agora precisa dar a seu sucessor independência¿. E diz que o presidente deixa alguns problemas não resolvidos e que ¿não está claro se Dilma tem a força ou o desejo para lidar com eles¿. O artigo diz ser ¿uma pena que Dilma seja tão dependente do apoio de Lula, já que o Brasil necessita de um líder forte e independente¿.

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