Título: Os exilados do crescimento
Autor: Oswald, Vivian; Beck, Martha
Fonte: O Globo, 03/10/2010, Economia, p. 49
Forte expansão da economia no país não evita emigração de meio milhão de brasileiros
BRASÍLIA e LONDRES
O forte crescimento da economia em níveis que não se veem desde 1986 não tem sido suficiente para conter o impulso emigratório. Brasileiros continuam buscando uma vida melhor no exterior, ainda que isso envolva arriscar a própria vida para cruzar a fronteira entre o México e os Estados Unidos, como aconteceu com dois mineiros e dois paraenses mortos em chacina com outros 68 imigrantes latinos em agosto. Veem lá fora ¿ em países que ainda não se recuperaram da crise ¿ oportunidades mais consistentes de ganhar melhor e ter mais acesso a bens e serviços de qualidade.
Muitos acabam se dando mal. Entre 2001 e 2009, a diferença entre quem saiu e voltou ao país está positiva em mais de meio milhão de brasileiros.
Embora não existam dados oficiais consolidados, estima-se em cerca de três milhões o número de brasileiros que vivem, hoje, no exterior. Tratase de uma Brasília.
Especialistas garantem que uma camada grande da população ainda estaria imune à bonança econômica recente e seus recordes de novos postos de trabalho e aumento real da renda. Órfãos do crescimento econômico, um exército de dois milhões de desempregados remanescentes e a chamada classe média baixa não teriam tido acesso aos efeitos da nova euforia. Querem ascensão social ou a manutenção do padrão de vida que consideram básico.
O quadro atual é muito diferente da década de 80, quando uma geração de brasileiros mudou-se para o exterior para fugir das sucessivas crises econômicas. Mesmo assim, ainda não é capaz de manter essa massa de pessoas aqui dentro.
¿ Meu marido, mãe e padrasto foram na frente, há dois meses. Meu marido trabalha em obra, minha mãe é babá e meu padrasto, mecânico. Mesmo com o dólar ruim e a crise, a vida ainda é bem melhor do que aqui. Por mais que não tenham luxo, estão vivendo melhor ¿ disse Kelly S., de 25 anos, que está prestes a deixar o interior de Goiás e a faculdade para partir com a filha rumo aos EUA, ainda sem emprego em vista.
As oportunidades geradas com a expansão, sesegundo Victor Klagsbrunn, especialista em migração da UFRJ, têm sido mais importantes tanto para os mais qualificados quanto para os menos qualificados, deixando uma camada intermediária, e importante, de fora.
¿ São essas pessoas que buscam no exterior uma forma de ascensão social. Antes um diploma poderia permitir isso no Brasil. Agora, não mais ¿ afirma o professor.
¿ A classe média baixa não tem a quem pedir quando tem dificuldade financeira, não é como a classe média, que sempre tem alguém da família ¿ diz a analista Sylvia Dantas, da Universidade Federal de São Paulo.
A turbulência financeira que atingiu sobretudo os países mais ricos fez muita gente voltar em 2009, mas, aos poucos, o movimento de saída está sendo retomado. Mesmo assim, de 2001 até o ano passado, o fluxo é positivo com a saída de 541.487 pessoas para as américas do Norte, Sul e Central, além de Europa e Ásia, segundo Klagsbrunn.
Salários no exterior são mais altos
Quem sai garante que está atrás de um mínimo: ¿ Você quer uma vida melhor, condições básicas: um carro decente na garagem, a casa própria e dinheiro para bancar os estudos dos filhos, comprar um par de tênis sem se apertar. Quando você sai e vê que qualquer um tem acesso a um conforto mínimo e tranquilidade lá fora, você vê que o seu país não dá motivos para ficar ¿ diz Rodrigo A., que voltou do Japão com a mulher no ano passado, após 14 anos, devido à crise global.
Estudo do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getulio Vargas (FGV) mostra que, enquanto 53% dos brasileiros residentes nos EUA ganham mais de US$ 30 mil anuais, entre os brasileiros que moram na terra natal menos de 7,67% figuram nessa seleta faixa de renda, considerando a taxa de câmbio atual e os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) de 2009.
¿ O primeiro ano que passei aqui foi bem complicado. Tive que me adaptar à língua enquanto trabalhava como garçom, pedreiro. Ganhava o suficiente pra me sustentar ¿ conta Eduardo Maia, que emigrou para a Austrália, novo destino de brasileiros, sobretudo após as restrições americanas à entrada de imigrantes.
Ele diz que já não aceitaria proposta equivalente de trabalho no Brasil, na área de telecomunicações, ainda que ganhando o mesmo salário: ¿ A vida aqui é muito fácil. A cidade de Sydney é muito cara, mas os salários são compatíveis. Os impostos são bem altos, mas você vê cada centavo sendo investido de volta no transporte público, muito eficiente, nas estradas e segurança pública. A diferença entre pobres e ricos é muito menor que no Brasil e, por consequência, os índices de violência são baixíssimos. Mês passado um policial morreu durante ação na casa de um traficante. Foi o 12opolicial morto em 20 anos. Detalhe: a bala que o matou saiu da arma de outro policial.
¿ Tinha um padrão de vida modesto no Japão. Para ter o mesmo aqui teria de ganhar pelo menos R$ 5 mil. Quantas oportunidades você tem para ter um salário desses aqui? ¿ diz Rodrigo.
O fluxo de brasileiros para o exterior não está restrito aos países ricos. A Guiana Francesa atrai gente do Norte do país, sobretudo do Amapá, que quer ganhar o salário mínimo francês, de C 1.200.
Dados do Banco Central (BC) mostram que, em 2008, as remessas de brasileiros no exterior atingiram US$ 2,9 bilhões, caindo para US$ 2,2 bilhões em 2009. Até agosto deste ano, o montante somou US$ 1,48 bilhão, valor 1,3% superior ao de igual período de 2009, mostrando o início da recuperação.
A paulista Karen Hoida, de 32 anos, há pelo menos quatro anos faz passeios com cães pelas ruas e parques de Londres. Hoje, são 18 clientes de quatro patas que lhe consumem seis horas diárias, sete vezes por semana, mas há ainda as horas extras como babá dos cachorros quando os donos viajam. A realidade pode até ser diferente do sonho de trabalhar como veterinária, mas Karen jamais se arrependeu da decisão de abandonar os estudos e tomar o rumo do Reino Unido, atraída pelo desejo de aprender inglês.
¿ Ouço notícias de que as coisas mudaram e que a situação do país melhorou, mas minha família e meus amigos continuam reclamando ¿ diz Karen, que ganha, no mínimo, R$ 4 mil mensais com os passeios de cachorros.