Título: Moeda forte vale mais que ideologia
Autor:
Fonte: O Globo, 03/10/2010, O País, p. 22
É sempre arriscado dar uma eleição como decidida antes da hora. Mas ninguém vai achar muito ousado se escrevo que, salvo uma surpresa sem precedentes, o resultado desta eleição presidencial já é conhecido faz tempo. No entanto, ficou muito menos claro na última semana se a vitória se dará no 1oou no 2oturno. Para alguns leitores ¿ especialmente os do ¿Financial Times¿, na sua maioria distantes do Brasil ¿, pode parecer irrelevante. Não é.
Um colega comentou outro dia que seria bom para a democracia brasileira se a eleição fosse para o 2oturno.
Seria saudável para a competição entre forças políticas, argumentou, e faria com que os ideólogos do PT não ficassem de salto alto. O governo, segundo ele, teria menos força para embarcar em um desvio da nação brasileira para o ¿estadismo¿.
Respeito muito meu colega, mas discordo frontalmente.
Não sou cidadão brasileiro, não tenho voto e, se tivesse, minha inclinação não seria para votar na Dilma. Mas sou pai de três brasileiras, marido de uma, amigo de dezenas, admiro muitos e torço por todos. Estou torcendo para a Dilma ganhar com grande vantagem no 1oturno domingo.
Por quê? Afinal, entendo as opiniões da maioria das pessoas que entrevisto no dia a dia, que dizem que os brasileiros teriam um futuro melhor se houvesse uma reforma radical do sistema tributário, se o tamanho do Estado fosse reduzido, se os juros fossem baixados graças a um esforço genuíno de controle fiscal.
Poucos acreditam que tudo isso seria mais provável num governo Dilma que num governo Serra. Algumas temem que a Dilma possa, sim, levar o Brasil para a ineficiência, o progresso mais lento.
Acredito que tanto Dilma quanto Lula saibam que, sejam quais forem suas crenças ideológicas, o brasileiro votará na continuidade no domingo porque gosta de uma moeda forte, com baixa inflação e criação de empregos. Como disseram em outro país, em outra ocasião: ¿It¿s the economy, stupid.¿ Quando Lula foi para o 2oturno em 2006, a privatização foi para o ralo. Se Dilma for para o segundo turno em 2010, as chances de um ¿choque positivo¿ ¿ como Lula providenciou em 2003 ¿ podem ir pelo mesmo caminho. Seria muito pior para os brasileiros