Título: A má política e as regras do jogo
Autor:
Fonte: O Globo, 03/10/2010, O País, p. 22
Denúncias sobre corrupção aumentam em períodos eleitorais. A conclusão de uma campanha é um bom motivo para se refletir sobre algo que a opinião pública tende a subestimar: a má política tem muito a ver com as regras do jogo eleitoral. Corrupção não existe só porque ¿são todos ladrões¿, mas também pelas oportunidades oferecidas no sistema onde eles jogam e se autopromovem. Se o voto popular dura um dia, a campanha na política moderna é o ano todo, e nesse meio são necessárias mudanças.
Na Itália dos anos 90, o sistema político foi subvertido por escândalos, com a famosa operação Mãos Limpas. Desmoronaram-se partidos tradicionais, mudou o sistema eleitoral, surgiram novos atores na política. Juízes transmitiram a ideia de que a corrupção era efeito de um sistema podre nas relações entre a política e a economia, e que era preciso mudar as regras do jogo. Os políticos tiveram que se dobrar. Aqui é parecido. O nível de conhecimento do público sobre maus comportamentos políticos é alto, e a paciência brasileira vai se esgotando.
A reforma política é unanimidade nos discursos, mas até um presidente da República com uma popularidade imensa não fez nada a respeito. Mudanças parecem urgentes, para que a democracia brasileira seja levada em direção a um sistema mais claro, e não aconteça ¿ como agora ¿ que um líder da ditadura e a própria vítima virem aliados ou, pior, ¿companheiros¿. Na política, coerência é parte importante da moralidade. O poder de quem ganha a Presidência deveria aumentar no Congresso e diminuir na escolha das pessoas. Quase toda a corrupção nasce no alvo do sistema dos ¿cargos de confiança¿, mas poucos questionam o fenômeno.
Como profissional de comunicação, não fiquei indiferente aos efeitos perversos de uma instituição só em aparência democrática, como o horário gratuito.
É preciso forte redução da política sem mediação.
É pouco mexer somente nas regras de campanha? Seria mais que um bom começo. Porém a implementação de novas regras precisa de uma opinião pública forte. Nunca no mundo os corruptos organizaram o próprio suicídio. Mas houve classes políticas inteiras, como na Itália, que foram obrigadas a fazer ajustes, e com rapidez, para não serem ¿suicidadas¿ pela opinião pública.