Título: Um país do qual se orgulhar
Autor:
Fonte: O Globo, 03/10/2010, O País, p. 22

Até pelo fato de não falar bem o português, poucos sabem que sou carioca. Nasci quando meu pai trabalhava como correspondente da rede de TV pública japonesa NHK. Com 1 ano, fui para o Japão e lá vivi até setembro de 2008, quando tive a oportunidade de voltar ao Brasil como correspondente do ¿Asahi Shimbun¿, um dos jornais de maior circulação no Japão, com oito milhões de exemplares diários.

Apesar de ter usado o passaporte brasileiro, não conhecia a fundo o país em que havia nascido.

No ano passado, quando o Brasil comemorava a escolha do Rio como sede das Olimpíadas de 2016, eu estava em Copacabana fazendo reportagem para o jornal. Era 2 de outubro, meu aniversário. O público gritava eufórico. Na TV, Lula dizia, com olhos cheios de lágrimas, que o Brasil havia mostrado ser capaz de sediar as Olimpíadas mesmo tendo favelas e sendo considerado um país em desenvolvimento.

Talvez a conquista das Olimpíadas seja a maior prova de que o mundo passou a confiar no Brasil.

Cresci no Japão. A imagem que se fazia do Brasil era a de um país perigoso, pobre, com elevados índices de inflação. Hoje o Japão vê o Brasil com outros olhos. Depois da crise financeira, o mercado interno japonês se retraiu, e muitas empresas de pequeno e médio porte, principalmente de produtos alimentícios e têxteis, passaram a buscar consumidores no Brasil. É notório o aumento do interesse do Japão pelas questões socioeconômicas brasileiras.

Publicamos hoje em nosso jornal pelo menos o dobro de notícias sobre o país do que há cinco anos.

Pela primeira vez, vou votar. O próximo presidente terá um desafio nas áreas de segurança, educação e infraestrutura. Questiono se os altos impostos que pago estão sendo devolvidos como serviço público de qualidade. Ano passado, fui assaltada e agredida à luz do dia, num bairro de classe média alta de SP.

Ainda assim, o Brasil está melhor. É preciso, entretanto, construir a base para um crescimento maior e uma sociedade menos desigual. Só assim o Brasil será um país do qual poderemos nos orgulhar de fato.

E não apenas por ter nascido nele.