Título: Tiririca pode não ler seu discurso de posse
Autor: Paul, Gustavo
Fonte: O Globo, 05/10/2010, O País, p. 21

Se o deputado federal eleito não comprovar que sabe ler e escrever, seus votos serão anulados

SÃO PAULO. Os 1.353.820 votos que elegeram o palhaço Tiririca ¿ o mais votado do país em números absolutos ¿ e puxaram outros três candidatos a deputado federal de sua coligação poderão ser anulados por suspeita de que ele é analfabeto, o que, pela Lei Eleitoral, é um impedimento para sua eleição. A Justiça Eleitoral recebeu ontem denúncia oferecida pelo Ministério Público Eleitoral contra Francisco Everardo Oliveira Silva, o Tiririca, alegando que a prova técnica apresentada sobre sua alfabetização mostra discrepâncias de grafias.

O juiz da 1ª Zona Eleitoral de São Paulo, Aloísio Sérgio Rezende Silveira, escreveu em seu despacho que ¿a prova técnica produzida pelo Instituto de Criminalística aponta para uma discrepância de grafias¿, o que leva a uma ¿razoável dúvida¿ sobre uma das ¿condições de elegibilidade inseridas em declaração firmada pelo acusado, no momento do pedido de registro de candidatura a deputado federal para concorrer às eleições 2010, por meio da qual afirma que sabe ler e escrever¿

Candidato tem dez dias para apresentar sua defesa O prazo para que Tiririca ¿ que viajou ao Ceará para comemorar a votação com a família ¿ apresente sua defesa é de dez dias.

Essa denúncia do MPE foi recebida pela Justiça Eleitoral como complementação a outra, de 22 de setembro, na qual Tiririca é acusado de omitir a posse de bens materiais em sua declaração, no pedido de registro de candidatura, oferecida pelo Ministério Público Eleitoral. Caso seja condenado, o deputado eleito poderá ter pena de até cinco anos de reclusão e o pagamento de cinco a 15 dias-multa por declaração falsa em documento público ou diversa da que deveria ser escrita para fins eleitorais.

O delegado Protógenes Queiroz, da Polícia Federal, um dos responsáveis pela Operaçã o Satiagraha em 2008, deve sua eleição para a Câmara dos Deputados ao palhaco: os 1.353.820 votos conquistados por Tiririca foram suficientes para a sua própria eleição e a de outros três deputados.

Além do delegado da PF, que é do PCdoB ¿ ele fez 94.906 votos com a proposta eleitoral de combate à corrupção ¿, os votos de Tiririca elegeram também Vanderlei Siraque (PT), que teve 93.314 votos, e Otoniel Lima (PRB), que obteve 95.951 votos.

Classificado como um representante da alienação do eleitorado e puxador de votos de candidatos ¿de ficha não muito limpa¿, Tiririca elegeu, por ironia, um dos maiores símbolos da luta anticorrupção do país. O delegado Protógenes ganhou notoriedade por sua atuação na Operação Satiagraha, em 2008, quando prendeu o investidor Daniel Dantas duas vezes, sob a acusação de corrupção e lavagem de dinheiro.

O delegado foi afastado das investigações depois de ser acusado de vazamento de informações.

Por causa de Maluf, lista de eleitos em SP poderá mudar Protógenes também prendeu o deputado Paulo Maluf (PP-SP), cuja candidatura à reeleição está sub judice por causa da Lei da Ficha Limpa.

Na eleição de domingo Maluf obteve 497.203 votos, que seria a terceira maior votação de São Paulo para a Câmara dos Deputados ¿ depois da de Tiririca e Gabriel Chalita ( PSB ), que fez 560.022 votos. Os votos de Maluf não foram computados e só valerão depois que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidir sobre a Ficha Limpa. Caso os votos sejam validados, a composição dos 70 deputados paulistas eleitos sofrerá alteração