Título: PF faz operação no Acre contra uso da máquina
Autor: Roxo, Sérgio
Fonte: O Globo, 02/10/2010, O País, p. 16
Houve mandados de busca na sede do governo, prefeitura, Assembleia e no escritório de Tião Viana
RIO BRANCO. Por volta das 11h de ontem, a Polícia Federal deflagrou em Rio Branco, a pedido do Ministério Público Federal, uma operação para apurar o uso da máquina pública na campanha eleitoral da Frente Popular, coligação do PT no Acre. A PF cumpriu sete mandados de busca e apreensão de computadores e outros equipamentos no gabinete do governador, Binho Marques (PT), na sede da prefeitura de Rio Branco, na Assembleia Legislativa do estado e no escritório do senador petista Tião Viana, que concorre ao governo estadual. Além dos órgãos do governo, também foram alvo da operação a rede estatal TV Gazeta e o jornal "Página 20".
Embora a investigação corra em sigilo, Viana disse que a suspeita da polícia é que alguns funcionários de imprensa do governo estariam usando equipamentos públicos para fazer campanha. Segundo ele, que lidera com folga a disputa pelo Palácio Rio Branco, a investigação não atrapalha em nada sua candidatura.
- Não afeta a campanha. Estou super tranquilo. Eu liguei para o superintendente da PF e ele disse que estava apenas cumprindo mandados do Ministério Público, que recebeu uma denúncia - minimizou o petista.
O disque-denúncia, serviço em funcionamento desde 19 de julho em função das eleições, já recebeu 1.050 ligações, ou 20 denúncias por hora, em média. A maior parte se refere a compra de voto e uso da máquina pública em campanhas. O presidente do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) do Acre, Arquilau de Castro Melo, disse que a compra de votos no estado é a grande preocupação da Justiça Eleitoral do Acre.
Segundo ele, há duas modalidades praticadas fartamente: aquela em que o político dá dinheiro direto em troca de voto, e a assistencialista, na qual o político se aproveita de eleitores que vivem nas 121 áreas mapeadas pelo TRE como sendo de difícil acesso, e oferecem transporte, hospedagem e alimentação no dia da votação.
- A gente (a Justiça Eleitoral) não tem estrutura para trazer esse eleitor dos altos rios para a cidade para votar. Então esse eleitor vem bancado por um político. Quando chega à cidade, é o político que hospeda. Então, esse político naturalmente vai ser o dono do voto desse eleitor - disse o presidente do TRE.
Desde ontem à noite, 840 policiais militares e federais estão rodando as ruas dos 22 municípios acreanos para tentar barrar a atuação de políticos em busca de comprar votos. Por causa da instalação de seções eleitorais em áreas isoladas, o TRE usará três aviões e cinco helicópteros para levar as urnas a esses locais. A eleição no estado custará R$4,5 milhões, e deverá, segundo o TRE, ser uma das últimas a encerrar os trabalhos, por volta das 22h.
Uma das medidas adotadas para diminuir a prática foi a criação de novas seções eleitorais na zona rural. De 1.269, em 2008, elas já somam este ano 1.467. Outra forma de compra de voto é feita, segundo o presidente do TRE, com dinheiro ou materiais de construção. Os alvos são os analfabetos, que representam um alto índice do eleitorado acreano. Embora a média estadual seja de 14,3%, em algumas cidades, como em Jordão, chega a 38%. O crime acontece principalmente na madrugada do dia da eleição.
- Nossa cidade não dorme de sábado para domingo. O sujeito passa nos bairros com santinho e R$20, R$50. Isso é o que mais nos preocupa: essa coisa de, depois do dia das eleições, fulano ganhou, mas todo mundo sabe: comprou voto - afirmou Arquilau de Castro Melo.