Título: Dilma visita capela e fala contra aborto
Autor: Herdy, Thiago; Galdo, Rafael
Fonte: O Globo, 08/10/2010, O País, p. 12
No Rio, Picciani e Eduardo Paes articulam participação de seis correntes evangélicas na campanha da petista
Thiago Herdy, Rafael Galdo e Marcelo Remígio
BELO HORIZONTE e RIO. Aos pés do Cristo crucificado e ao lado de uma imagem de Nossa Senhora de Fátima, a candidata do PT à Presidência, Dilma Rousseff, reclamou do que chamou de "campanha caluniosa" contra sua candidatura na internet e disse ser contra o aborto. Dilma visitou o Mercado Central, ponto turístico da cidade. Entretanto, não chegou a caminhar pelos corredores do mercado. Foi apenas a uma pequena capela localizada no estacionamento, onde recebeu o apoio da juventude de quatro congregações católicas em Minas Gerais.
- Diante da campanha que tem sido feita contra mim, essa campanha meio clandestina, que faz parte do submundo da política, é muito bom a gente escutar uma voz cristalina, como a de padres e freis que falaram aqui comigo - disse Dilma, afirmando que a conversa com os jovens "calou fundo no coração".
As pesquisas do primeiro turno constataram a queda dos votos na candidata entre religiosos, atribuída à campanha viral na internet sobre sua opinião a respeito do aborto.
- Queria aproveitar para deixar claro a minha posição: pessoalmente, sou contra o aborto. Até porque seria muito estranho que, quando há uma manifestação de vida no seio da minha família, porque meu neto acabou de nascer, eu defendesse posição a favor do aborto. Sou contra porque é uma violência contra a mulher - disse Dilma.
Dilma disse que não será necessário alterar seu programa para atender aos religiosos:
- Não tem nada sobre o aborto no programa de governo. Então, não tem que alterar.
A capela onde Dilma se reuniu com os religiosos foi especialmente aberta para receber a candidata. Normalmente, abre apenas aos domingos.
Depois da entrevista na capela, Dilma cumprimentou militantes no estacionamento, em meio a um tumulto. Ela se desentendeu com seguranças que tentaram afastar pessoas que tentavam beijá-la. Sobre o suposto oferecimento de cargos a dirigentes do PV para que Marina Silva apoie o tucano José Serra no 2º turno, Dilma disse que não seguirá a mesma estratégia:
- Não concordo com esse tipo de relação de pressão. Deixa as coisas se acalmarem, a hora da conversa vai chegar. Eu respeito a Marina independentemente do apoio dela.
Depois, Dilma fez uma carreata de pouco mais de dois quilômetros em Ribeirão das Neves, na região metropolitana de Belo Horizonte, acompanhada pelo petista Fernando Pimentel, candidato derrotado ao Senado, e pelo prefeito de Ribeirão das Neves, Walace Andrade (PSB).
No Rio, a disputa pelo voto dos evangélicos mobiliza várias frentes de aliados de Dilma. O prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), e o deputado Jorge Picciani (PMDB), derrotado na corrida pelo Senado, articulam com pelo menos seis correntes participação na campanha petista. Nas conversas, os dois teriam sugerido que pastores gravassem para o programa de TV de Dilma. E estaria sendo organizado um reforço no pedido de votos para Dilma em templos localizados em favelas, o que é proibido pela lei eleitoral.
Além da Igreja Universal, por meio do senador Marcelo Crivella (PRB), e da Assembleia de Deus, através do pastor Manoel Ferreira, as negociações envolvem as igrejas Mundial do Poder de Deus e Cristo Vivo. Os contatos também já estão avançados com grupos pentecostais ligados ao deputado estadual Edino Fonseca (PR) e com a Assembleia de Deus dos Últimos Dias, controlada pelo pastor Marcos Pereira, que apoiou o candidato ao Senado Waguinho (PTdoB).
Antes da carreata de Dilma anteontem, na Baixada Fluminense, Picciani já havia afirmado que buscaria aproximação com o pastor Silas Malafaia, da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e próximo ao ex-governador Anthony Garotinho (PR). E por meio do deputado estadual Edson Albertassi (PMDB) se tentaria contato com a Terra do Avivamento, que tem forte presença no Sul do estado.
Com Waguinho - que teve 1.295.946 votos para senador - e o pastor Marcos, a conversa de Dilma ocorreu pessoalmente, quarta-feira, numa sala vip no Aeroporto Santos Dumont, após a carreata. Segundo Waguinho, a reunião, que terminou com uma oração, foi articulada pelos senadores eleitos Marcelo Crivella (PRB) e Lindberg Farias (PT). De acordo com Waguinho, Dilma teria dito ser contra alguns pontos do projeto de lei 122/2006, que torna crime a discriminação a homessexuais.