Título: Meirelles: Brasil protegerá economia e não importará desequilíbrio de ricos
Autor: Eichenberg, Fernando
Fonte: O Globo, 11/10/2010, Economia, p. 18
Presidente do Banco Central defende intervenção no câmbio quando necessária
Correspondente
WASHINGTON e DUBLIN. O presidente do Banco Central (BC), Henrique Meirelles, disse que o Brasil não pode importar o desequilíbrio de outros países por meio dos valores artificiais de moedas nacionais. Ele ressaltou a necessidade de uma discussão global para corrigir as atuais distorções cambiais causadas pela depreciação forçada de certas moedas.
O Brasil não vai pagar o preço do desequilíbrio de diversos países. Isto não é correto.
Estamos preparados para discutir uma solução global. Vamos propor que as diversas moedas possam achar um caminho através de flutuações adequadas.
Mas, independentemente de qualquer coisa, o Brasil tomará medidas de defesa e providências para proteger a sua economia garantiu.
A chamada guerra cambial foi o principal tema da reunião anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (Bird), encerrada ontem em Washington, e será retomada em novembro por chefes de Estado, em Seul, no encontro dos países do G-20, grupo formado pelas principais economias avançadas e emergentes do planeta.
Valorização do yuan será gradual, insiste China China e Estados Unidos, que exigem o fim da desvalorização do yuan face ao dólar, acirraram as tensões em Washington, embora o diretor-gerente do FMI, Strauss-Kahn, tenha buscado um tom mais diplomático. Ontem, o presidente do BC chinês, Zhou Xiaochuan, voltou a afirmar que a apreciação da moeda chinesa deve se dar de forma gradual. Ele comparou a medicina oriental com a ocidental para explicar os desafios do debate cambial.
A China gostaria de (fazer uso de) maneiras mais graduais para promover o equilíbrio entre as demandas interna e externa disse Zhou, após seminário no último dia do encontro do FMI. Na China, várias pessoas acreditam nos médicos chineses.
Nos países ocidentais, eles acreditam nos médicos treinados no Ocidente.
Meirelles espera que o debate sobre o câmbio no G-20 seja mais conclusivo e decisivo que o ocorrido da reunião do FMI.
Nós não vamos entrar em discussões específicas entre um e outro país. Existem discussões bilaterais. O Brasil já definiu sua posição. Estamos fazendo a nossa parte. Não vamos aceitar assumir desequilíbrios para tentar ajudar o reequilíbrio de outros países disse.
Ele mencionou a experiência e o histórico do Banco Central na intervenção no câmbio de acordo com as necessidades exigidas, com base em uma política definida desde 2004, capaz de absorver os excessos de liquidez na economia brasileira.
Já houve momentos de compra e de venda de câmbio.
Já houve momentos, inclusive, em que se justificou a atuação nos mercados futuros. Agora com a operação da Petrobras, o Banco Central estava preparado para fazer compras mais volumosas em função do grande fluxo de recursos esperados.
Meirelles diz que está observando com toda a atenção o déficit em conta corrente, e que o Brasil está tomando providências para manter sua economia equilibrada.
O Brasil está adquirindo o excesso de liquidez externo que entra na economia através da compra de reservas. Está tomando medidas para evitar que essa canalização de liquidez se dê através do sistema financeiro e possa contaminar toda a economia, fazer com que comece a acelerar o processo de déficit em conta corrente através do endividamento excessivo.
Irlanda deve cortar C 4,5 bi do orçamento em 2011 Segundo ele, é a política monetária expansionista dos EUA, e não o acúmulo de reservas por parte dos países emergentes, o maior responsável pelos desequilíbrios mundiais.
O desequilíbrio mais importante atual é a expansão monetária americana, usada para combater o baixo crescimento e o desemprego elevado nos EUA.
Isso ocasiona grande injeção de liquidez na economia internacional.
Não é o acúmulo de moedas de emergentes que vai assumir essa responsabilidade.
Sobre os rumos da política fiscal na futura troca de governo no Brasil, foi evasivo.
É legitima a discussão de se colocar qual será a trajetória fiscal do próximo governo. É uma questão de aguardarmos o próximo governo assumir para anunciar a sua política fiscal.
Também ontem, o ministro das Finanças da Irlanda, Brian Lenihan, afirmou que o corte no orçamento de 2011 será bem acima da meta inicial de C 3 bilhões (US$ 4,2 bilhões). O país está sob pressão para provar que pode diminuir o maior déficit orçamentário da União Europeia.
A imprensa local informou que o corte poderá ser de C 4,5 bilhões, o quarto plano de austeridade em dois anos. (Com agências internacionais).