Título: No Pará, Jader cobra caro por apoio a Ana Júlia
Autor: Maltchik, Roberto
Fonte: O Globo, 16/10/2010, O País, p. 11
Senador eleito quer ajuda para barrar a Lei da Ficha Limpa
BRASÍLIA. No Pará, a candidata do PT ao governo do estado, Ana Júlia Carepa, amarra alianças aparentemente impensáveis e recebidas com espanto nas ruas de Belém para tirar a desvantagem na disputa contra o tucano Simão Jatene. E, para compensar a distância que ainda a separa de seu sonho, espera a bênção do todo-poderoso deputado Jader Barbalho (PMDB), que cobra um preço altíssimo para apoiá-la.
O candidato ficha suja, que depende do Supremo Tribunal Federal (STF) para assumir novo mandato no Senado, atua nos bastidores para que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva indique para a vaga em aberto na Suprema Corte um ministro que considere a Lei da Ficha Limpa inválida nas eleições deste ano.
Na última quinta-feira, Jader se esquivou de um encontro com Lula e com a presidenciável Dilma Rousseff (PT) nos intervalos da campanha da dupla na capital paraense. O deputado, que recebeu 1,8 milhão de votos no primeiro turno, também fugiu de interlocutores do PT em Brasília. O partido atribui os desencontros à "complicada agenda do aborto que contaminou a campanha presidencial". Na verdade, Jader já foi informado que o Palácio do Planalto não topa o acordo e, por isso, mantém distância do grupo de Ana Júlia.
A proposta, classificada como indecorosa por políticos paraenses, é proporcional ao desentrosamento político entre Jader e Ana Júlia.
Presidente não estaria disposto a assumir risco
O presidente Lula, de acordo com interlocutores do PT e do PMDB, já sinalizou que não está disposto a assumir tamanho risco político em nome de Jader Barbalho e da eventual reeleição de Ana Júlia. A votação da Lei da Ficha Limpa é um dos maiores impasses da história do STF, que ainda não se posicionou sobre a aplicabilidade ou não da nova lei.
No segundo turno da disputa estadual, os quase dois milhões de votos de Jader são tão disputados que a Lei da Ficha Limpa passou a ser palavra proibida nas campanhas de Ana Júlia e Simão Jatene.
Em entrevista coletiva ao lado de Almir Gabriel - ex-tucano que já foi chamado de assassino por parte do PT quando era governador, na época da chacina de Eldorado de Carajás, mas que aderiu à campanha petista na sexta-feira -, Ana Júlia afirmou que está à espera de uma sinalização de Jader, mas negou que esteja em curso uma negociação de cargos no caso de eventual segundo mandato.
No outro lado, o favoritismo já garantiu a Jatene o apoio de importantes puxadores de voto no segundo turno, todos filiados ao PMDB. Entre eles, o deputado estadual Parsifal Pontes, ex-prefeito de Tucuruí e braço direito de Jader na Assembleia.