Título: A eleição tem a pior mistura de política e religião
Autor: Benevides, Carolina
Fonte: O Globo, 16/10/2010, O País, p. 17

É possível misturar religião e política ao se discutir temas como aborto, casamento gay e união civil dos homossexuais?

REGINA NOVAES: Há várias maneiras de misturar religião e política. Nesta eleição, está se fazendo a pior mistura. Interessante notar que, em eleições passadas, temia-se que candidatos evangélicos, vistos como sectários e fundamentalistas, se apropriassem do Estado laico e republicano. Mas hoje vemos uma elite política e católica do Sudeste que busca setores evangélicos mais conservadores para colocar em questão a fé pessoal na disputa eleitoral. O que deveria interessar não é a prática religiosa de quem se candidata, mas como cada um dos candidatos pretende assegurar a liberdade religiosa.

As campanhas têm evitado discutir a criminalização da homofobia.

REGINA: Isso é uma lástima. Em vez de avançar este debate, pouco se faz para esclarecer as diferenças entre união civil entre pessoas do mesmo sexo e casamento gay. Ao Estado cabe o civil e os mecanismos para evitar a discriminação por orientação sexual. Às igrejas cabe decidir quem casar. Esta é outra mistura indevida que nos coloca muito aquém da nossa experiência democrática pós-Constituinte.