Título: Índice Big Mac mostra real e yuan em extremos opostos frente ao dólar
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Fonte: O Globo, 15/10/2010, Economia, p. 30

Moeda chinesa está subvalorizada em 40%, e brasileira, sobrevalorizada em 42%

LONDRES, NOVA YORK e RIO. Os argumentos de que o mundo está enfrentando uma guerra cambial foram reforçados com a atualização, ontem, do índice Big Mac, calculado pela revista britânica "The Economist". Este mostra que a moeda chinesa, o yuan, está subvalorizada em cerca de 40%. Já o real, segundo a revista, estaria sobrevalorizado em 42%.

Enquanto isso, o dólar continuou a recuar frente às principais moedas do mundo, com o mercado apostando que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) vai afrouxar ainda mais sua política monetária para estimular a recuperação da economia do país. O presidente do Fed, Ben Bernanke, fala hoje em Boston.

O índice Big Mac busca comparar diferentes moedas pelo critério da paridade do poder de compra. O parâmetro usado é o famoso sanduíche do McDonald"s, produzido em quase 120 países. A referência é o preço do sanduíche nos Estados Unidos - atualmente US$3,71, considerando-se a média de quatro cidades.

O real está sobrevalorizado porque, no Brasil, o Big Mac custa o equivalente a US$5,26. Já na China ele saiu por US$2,18. A "Economist" ressalta que outros fatores contribuem para a valorização do real, como o elevado preço de um de seus principais produtos de exportação, a soja.

Dólar tem menor cotação frente ao iene em 15 anos

A "Economist" afirmou que o fato de o yuan estar muito desvalorizado afeta não apenas os Estados Unidos e a Europa, mas outros emergentes - especialmente os que adotam o câmbio flutuante - e a própria China. Para evitar uma guerra cambial, sustenta a revista, é preciso que os países invistam em debates multilaterais. Uma ocasião propícia é a reunião do G-20 (que reúne as principais economias ricas e emergentes) em Seul, no mês que vem. "Dará menos manchetes, mas essa é uma guerra que é melhor evitar que lutar".

O dólar voltou a recuar ontem frente a uma cesta com euro, iene e franco suíço, atingindo o menor patamar desde dezembro de 2009. O índice recuou 1,1%, para 76,259 pontos, segundo a Bloomberg News. Em relação à moeda japonesa, o dólar caiu 0,4%, para 81,47 ienes, depois de atingir 80,89 ienes, a menor cotação em 15 anos.

O euro avançou 0,8% frente ao dólar, para US$1,4067. Durante o dia, a moeda única europeia chegou a ser negociada a US$1,4123, a maior cotação em oito meses. O franco suíço avançou 1,3% frente ao dólar, para 0,9463 franco, patamar recorde, segundo a Bloomberg. Já o dólar australiano está perto da paridade com a moeda americana: US$0,9939.

- Seja qual for a razão, os investidores querem vender o dólar - disse à Bloomberg Kazumasa Yamaoka, estrategista-chefe da consultoria GCI Research Institute, em Tóquio.

Presidente do BNDES diz que Brasil não pode ficar inerte

A guerra cambial, alvo de reportagem de capa da revista "Economist" desta semana, já foi criticada pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, e pelo diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), Dominique Strauss-Kahn. Ontem foi a vez de o presidente do BNDES, Luciano Coutinho. Ele disse à Bloomberg que o Brasil deve usar as armas disponíveis para enfrentar a valorização do real:

- Não é razoável permanecer inerte. É um desafio criar instrumentos de resistência.

Até a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) afirmou que a crescente disputa cambial entre os países ameaça a recuperação do investimento global. O órgão da ONU disse esperar estagnação nos ingressos de investimento estrangeiro direto este ano.