Título: Sarkozy manobra e Senado francês adia para hoje a votação de reforma
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Fonte: O Globo, 22/10/2010, Economia, p. 30
Sindicatos convocam novas manifestações. Governo promete punir violência
ESTUDANTES EM Paris: ¿Sarko-Fillon, baderneiros do social¿, referência a Sarkozy e ao premier François Fillon
PARIS. A votação no Senado da reforma da Previdência na França, que, entre outras medidas, eleva a idade mínima da aposentadoria de 60 para 62 anos, ficou para hoje, devido à estratégia da oposição de apresentar emendas para ganhar tempo. Para acelerar o processo, no entanto, o governo determinou o uso do chamado voto único, pondo fim à discussão individual das emendas. As paralisações e protestos prosseguiram, com Lyon novamente sendo palco de atos violentos. E os sindicalistas já convocaram novas jornadas nacionais de manifestação: 28 de outubro e 6 de novembro.
Pelo sistema de voto único, os senadores só podem votar contra ou a favor do projeto de lei em bloco, com todas as emendas já aprovadas. Uma delas, votada na madrugada de ontem, permite reabrir as discussões sobre a Previdência em 2013 ¿ no ano seguinte às próximas eleições presidenciais. Graças ao voto único, o governo suspendeu 228 das 254 emendas que ainda seriam discutidas.
A expectativa agora é que a comissão mista de senadores e deputados analise o projeto na segunda-feira e que ele seja aprovado na terça-feira, indo à sanção presidencial no dia seguinte.
¿ Já há mais de 120 horas de discussão ¿ afirmou no Senado o ministro do Trabalho, Eric Woerth. ¿ Não se justifica mais 50 horas de debates.
PS: `O presidente despreza o Senado e a demoracia¿
Segundo o jornal ¿Le Monde¿, a manobra deve levar à aprovação do projeto, pois a maioria votará pelo texto do governo, mesmo achando pertinentes algumas emendas da oposição ¿ que não poupou críticas:
¿ O Senado foi ridicularizado ¿ disse o presidente do bloco socialista, Jean-Pierre Bel.
¿Depois de parar o país ao querer impor uma reforma injusta, depois de se recusar a retomar as negociações, o presidente despreza o Senado e a democracia ao interromper os debates¿, afirmou em nota Martine Aubry, primeira-secretária do Partido Socialista (PS).
O voto único, previsto na Constituição, foi utilizado 250 vezes desde 1959, segundo a AFP.
Os estudantes voltaram às ruas, com novas cenas de violência em Lyon. A polícia usou canhões de água e gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes, além de adotar a tática de cercar pequenos grupos para dividir a marcha. O governo local avisou que o cerco policial será mantido hoje. Ontem 266 jovens foram detidos em todo o país. Desde 12 de outubro, o total de detenções chega a 2.257, sendo que 1.677 pessoas ficaram presas.
O presidente Nicolas Sarkozy classificou a violência dos protestos em Lyon de escandalosa e prometeu agir:
¿ Não serão os baderneiros que darão a última palavra em uma democracia, em uma República ¿ disse. ¿ Eles serão presos e punidos, em Lyon e outros lugares, sem fraqueza. Porque em nossa democracia há várias maneiras de se exprimir, mas a violência mais covarde, a mais gratuita, não é aceitável.
Já em Paris, cerca de 4 mil jovens, segundo a polícia (os organizadores estimaram 17 mil), protestaram pacificamente. Em Nantes, 1.500 jovens também foram às ruas, sem confrontos com a polícia.
Espetáculos são cancelados, cinemas deixam de abrir
O governo discute hoje com produtoras e distribuidoras de combustível o problema da escassez, apesar de ter divulgado queda no número de postos a seco. Segundo dados oficiais, 2.790 dos 12.300 postos do país estão desabastecidos, contra 3.180 na quarta-feira. Algumas cidades, mais afetadas, limitaram a compra de combustível.
Mesmo com a polícia liberando depósitos de combustível, os grevistas refizeram os bloqueios em 14 unidades, de um total de 219. Segundo a União Francesa das Indústrias Petrolíferas, o abastecimento levará alguns dias para voltar ao normal.
As manifestações estão afetando até o lazer dos franceses. Foram cancelados os dois shows que a cantora Lady Gaga faria este fim de semana em Paris, com a justificativa de ¿dificuldades logísticas na França hoje¿. A Opéra de Paris já cancelou apresentações de ópera e balé.
As editoras estão com vários livros ¿ habitual presente de Natal na França ¿ ¿presos¿ nas gráficas por falta de transporte. E as redes de cinema multiplex têm preferido fechar as portas, principalmente nos subúrbios e em Lyon, temendo quebra-quebra. A violência fez bistrôs de Lyon não colocarem mesas na calçada.