Título: Política eleitoral atropela a economia
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Fonte: O Globo, 22/10/2010, Opinião, p. 6
A economia brasileira está bem, mas poderia estar melhor se as autoridades não estivessem agindo mais preocupadas com o curto prazo (as eleições) do que com o médio e o longo prazos. Os dados sobre a geração de empregos e a evolução da renda média dos trabalhadores são estimulantes. No entanto, para se assegurar esses ganhos de maneira mais duradoura, será preciso pôr em prática algumas mudanças nos rumos da política econômica, especialmente em um dos seus principais pilares, que é o equilíbrio das finanças públicas.
O próprio governo Lula colheu os frutos do ajuste que promoveu em seu primeiro mandato. Ao estabelecer metas mais ambiciosas de superávit primário, em um período ainda de baixo crescimento da economia, o governo contribuiu para um substancial avanço nos indicadores de solvência do setor público. Isso se refletiu posteriormente na classificação de risco do país, que alcançou o grau de investimento nos conceitos de todas as agências internacionais de avaliação de crédito, o que tornou o Brasil mais atrativo para investidores internacionais. Neste quadro, a tarefa do Banco Central foi facilitada, e sugiram até oportunidades para redução das taxas de juros, um problema crônico, não resolvido desde o lançamento do Plano Real.
A crise financeira mundial levou o governo a adotar uma política expansionista - justificada na época, diante do aprofundamento da recessão - e a manter o pé no acelerador mesmo depois de superado o momento crítico. É que a recuperação da economia coincidiu com a antecipação do "calendário" eleitoral. Os interesses partidários do governo se sobrepuseram à condução de uma política econômica voltada a um ciclo sustentável de médio e longo prazos.
Os conflitos decorrentes desse atropelamento já se fazem sentir. Para segurar a inflação dentro da meta, o Banco Central está sendo obrigado a manter as taxas de juros em patamares elevados (10,75%), e, desse modo, o real tem se apreciado mais do que o desejado. Foi o que aconteceu na reunião do Copom encerrada quarta.
Em vez de moderar a sua demanda (o que na prática deveria se evidenciar em um reforço do superávit primário), o governo vem fazendo o inverso. A reação dos mercados tem sido a de pressionar o BC por uma alta nas taxas de juros, que é evitada para não valorizar mais ainda o real.
Para desestimular a entrada de capitais financeiros, o Ministério da Fazenda elevou por duas vezes o imposto (IOF) incidente sobre aplicações de investidores estrangeiros em títulos de renda fixa.
Com a expectativa de os juros no Brasil permanecerem bem acima dos que prevalecem nas maiores economias, é possível que essa barreira não seja suficiente. Novamente a prudência e a racionalidade recomendariam ajustes macroeconômicos, e os que estão mais à mão do governo são os de política fiscal.
A continuar nesse ritmo, o presidente Lula acabará transmitindo a sua faixa no dia 1ºde janeiro, em Brasília, junto com uma bomba-relógio.