Título: França vive maio de 68 ao avesso
Autor:
Fonte: O Globo, 24/10/2010, Economia, p. 41

Para sociólogo, protestos nas ruas revelam angústia em relação ao futuro

LE GOFF: ¿esquerda não analisa, apenas `surfa¿ nos movimentos sociais¿

Para o sociólogo francês Jean-Pierre Le Goff, pesquisador do Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e autor de ¿La France morcelée¿ (¿A França despedaçada¿, Gallimard, 2008, sem edição no Brasil), o confronto entre governo e trabalhadores em torno da reforma da aposentadoria ¿ aprovada na sexta-feira, após uma semana de fortes protestos ¿ vai além da tradicional oposição entre esquerda e direita. Cético, ele critica o governo Sarkozy pela condução da reforma; os sindicatos, por sua intransigência; e os partidos de esquerda, por ¿surfarem¿ nos movimentos sociais. E diz que a França agora vive ¿um maio de 68 ao avesso¿. Na época, havia uma ideia positiva do futuro, e hoje há só angústia.

Clarice Spitz

Com um crescimento econômico tímido, um desemprego perto dos dois dígitos e o aumento da expectativa de vida, a reforma da aposentadoria não seria o mais indicado?

JEAN-PIERRE LE GOFF: Ela é desejável. Não há desacordo quanto a isso, mas a maneira de conduzi-la é questionável. Quanto à necessidade de financiar o regime de aposentadorias, é evidente que ela é necessária.

Quais são os erros do governo de Nicolas Sarkozy na condução da reforma?

LE GOFF: O problema não é apenas o governo. Quando personalidades de esquerda encararam a questão, durante os últimos 15 anos, também perdemos tempo de atacá-lo. A esquerda não analisa nada, apenas ¿surfa¿ nos movimentos sociais. Quanto aos sindicatos de hoje, há uma posição intransigente. Temos assistido a movimentos sociais que costumam durar alguns meses, se apagam e depois reacendem. A França está dentro (desse círculo) há algum tempo.

Alguns líderes, como o comunista Olivier Besancenot, têm falado em uma reedição de maio de 68...

LE GOFF: Alguns líderes de extrema esquerda têm a perspectiva da ¿Grande Noite¿, que esses movimentos sociais vão poder conduzir a uma greve geral que vai paralisar o país sob o modelo de maio de 68, mas a maior parte das pessoas hoje luta por razões específicas. Por trás da questão das aposentadorias, há um sentimento geral de insatisfação, as pessoas dizem ¿chega, é o bastante¿. Encarar o problema apenas pelo viés da aposentadoria não é a melhor maneira.

Por quê?

LE GOFF: Acho que, através das aposentadorias, tudo se cristaliza. A verdadeira questão que temos de nos perguntar é como, num país em que a maioria das pessoas concorda com uma reforma da previdência, uma boa parcela fica revoltada com a idade de sair, seja aos 60 anos, ou aos 62. Isso tem relação direta com a degradação e precarização das condições de trabalho. Na verdade, elas exprimem o mal-estar, a angústia, uma recusa através do problema das aposentadorias, que revela a falta de futuro. Isso não data de Nicolas Sarkozy, mas os escândalos recentes, a crise financeira e o caso Woerth-Bettencourt (suposto esquema de corrupção envolvendo o ministro do Trabalho e a dona da multinacional de cosméticos L¿Oréal) aumentam esse descontentamento.

Como classifica os atuais protestos na França?

LE GOFF: Esses movimentos não lembram em nada o que já foi o movimento operário europeu. São movimentos sociais reativos e defensivos que se sustentam sobre aquilo que foi adquirido, porque o futuro é visto de forma obscura. Essa é uma chave para compreender a revolta dos jovens. É um maio de 68 ao avesso. Naquela época havia uma representação positiva do futuro, uma noção para a juventude de outra sociedade possível, isso não existe mais! É triste, isso manifesta uma angústia em relação ao futuro.

Mas e a aprovação de cerca de 70% dos franceses em relação à greve?

LE GOFF: Quando existe um estado de saturação, sem perspectiva de futuro, não se trata de um problema de esquerda e direita. A França está despedaçada, dividida em categorias que querem manter suas aquisições e que não conseguem mais construir uma nação unida capaz de se projetar. O que falta é um projeto de futuro em um mundo que se tornou caótico. A França sempre teve uma ideia muito elevada de si mesma, mas agora passamos a outro lado, é um país deprimido, sem dinâmica.