Título: A extorsão nossa de cada dia
Autor: Damasceno, Natanael
Fonte: O Globo, 24/10/2010, Rio, p. 19

Denúncias ao perfil @ILEGALeDAI mostram que flanelinhas continuam a agir em toda a cidade

FLANELINHA recebe R$5 de motorista que estaciona em Vaga Certa em Ipanema

Eles continuam por toda parte. Apesar de a prefeitura afirmar que já deteve mais de 1.200 flanelinhas desde o início da gestão do prefeito Eduardo Paes, os guardadores ilegais estão em todos os lugares, como mostram denúncias recebidas através do perfil @ILEGALeDAI, no Twitter, ao longo da última semana. A extorsão acontece em pelo menos 56 pontos do Rio, principalmente no Centro e na Zona Sul. E não só o Rio ¿ que receberá eventos como a Copa de 2014 e os Jogos de 2016 ¿ sofre com os flanelinhas. Twitteiros de Niterói, Duque de Caxias e Itaguaí, na Região Metropolitana; e de Itaipava, em Petrópolis, também enviaram reclamações. As denúncias vieram até mesmo de outros estados. De acordo com os correspondentes internacionais do GLOBO, o problema é muito raro no exterior, mas acontece com intensidade nas grandes cidades brasileiras.

Estacionamento até em área proibida

Na tarde da última quinta-feira, três flanelinhas dominavam o trecho final da Avenida Vieira Souto, em Ipanema, entre as ruas Joaquim Nabuco e Francisco Otaviano. Ao preço de R$5, orientavam os motoristas a estacionar não só nas vagas regulares sem o tíquete obrigatório, mas também em locais proibidos. A alguns metros, um funcionário da Embrapark ¿ empresa que administra as vagas de estacionamento de sete bairros da Zona Sul ¿ acompanhava a ação dos guardadores ilegais. De acordo com um dos seguidores do perfil @ILEGALeDAI, a região virou um paraíso de flanelinhas, que atuam a qualquer hora do dia, ameaçando moradores e motoristas.

¿ Venho sofrendo com a ação dos flanelinhas. Estacionei na Rua Conselheiro Lafayete e fui surpreendido por dois flanelinhas quando eu já estava do outro lado da rua. Eles gritaram para chamar minha atenção e, como não demonstrei reação, eles me ameaçaram com palavrões. Um outro flanelinha faz ponto todos os dias na Rua Francisco Sá. Ele aborda quem estaciona lá ¿oferecendo¿ um serviço de lavagem do veículo. As pessoas são praticamente intimadas a aceitar o serviço ou a dar um dinheiro a ele ¿ disse o motorista, que por medo de represálias, pediu para não ser identificado.

Relatos semelhantes se repetem em outras áreas da cidade. E provam que a questão dos flanelinhas é um caso de polícia. A prática, além de envolver o crime de extorsão contra motoristas, pode ser considerada exercício ilegal da profissão ¿ crime enquadrado no artigo 47 da Lei de Contravenções Penais. De acordo com a prefeitura do Rio, dos 1.211 flanelinhas presos em operações Choque de Ordem, de janeiro de 2009 até outubro deste ano, cerca de 70% tinham alguma passagem policial. No entanto, com exceção de 3% deles que eram foragidos da Justiça ou tinham mandados de prisão expedidos, todos voltaram para as ruas depois de autuados.

De acordo com a Secretaria Especial de Ordem Pública (Seop), isso acontece porque os motoristas extorquidos não colaboram com a polícia. O motivo é que, para os flanelinhas permanecerem presos, são necessários o comparecimento na delegacia e o registro policial feito pela vítima. Segundo a Seop, já são 13 os guardadores ilegais detidos em operações Choque de Ordem ¿ cinco no Leblon, dois na Quinta da Boa Vista e seis em São Cristóvão ¿ que permaneceram presos por extorsão e formação de quadrilha, após as vítimas comparecerem posteriormente às delegacias dos bairros para fazer o registro.

A prefeitura diz ainda que, como a atuação dos flanelinhas se tornou um problema de segurança pública, a Seop tem atuado em parceria com a polícia. Eles estão desenvolvendo um trabalho de inteligência para detectar as áreas de atuação dos flanelinhas e coibir a atividade. A Polícia Militar ¿ que, em 2005, chegou a fazer uma grande operação contra os flanelinhas da cidade ¿ afirma, porém, que a competência para coibir a ação dos guardadores ilegais é da prefeitura e que atua no apoio às ações do município toda vez que é solicitada. A PM afirma que, se um de seus agentes flagrar um flanelinha extorquindo dinheiro de motoristas, efetua a prisão e o encaminha à delegacia da área.

Já a Secretaria Especial para a Copa e as Olimpíadas, que tem a missão de desatar os nós da cidade para os próximos eventos internacionais, garante que, a exemplo do que aconteceu em 2007, durante os Jogos Panamericanos, os flanelinhas não serão um problema para esses eventos.

O gerente-geral da Embrapark, Márcio Vieira, alega que seus funcionários são vítimas dos flanelinhas. Ele afirma que a empresa ¿ que chegou a ser ameaçada pelo prefeito de ter o contrato rompido devido a problemas na operação ¿ faz o que pode para evitar a ação dos invasores.

¿ Infelizmente, não temos como interferir. Quando os flanelinhas invadem um ponto, o fazem com ameaças. Se a empresa reclama, o operador acaba agredido. Temos diversos boletins de ocorrência relatando agressões aos nossos funcionários. Eu tenho denunciado à prefeitura e à polícia, mando reclamações por escrito.

oglobo.com.br/rio

FLANELINHAS CHEGAM A EXIGIR R$50 NA ZONA SUL na página 29