Título: Salas de aula vazias no ensino médio
Autor: Remígio, Marcelo; Ribeiro, Efrém
Fonte: O Globo, 24/10/2010, O País, p. 14

Total de jovens de 15 a 17 anos longe da escola chega a 15%; emprego e desinteresse afastam os alunos

Marcelo Remígio, Efrém Ribeiro e Isabela Martin

RIO DE JANEIRO. A descida das escadarias do Morro Santa Marta, em Botafogo, na Zona Sul do Rio, é rápida. Pontualmente, o balconista Lenon Pereira, 19 anos, sai de casa às 11h40m, todos os dias, para trabalhar em uma padaria. Ele é um dos muitos jovens brasileiros que, para gerar renda ou por falta de interesse, trocaram a sala de aula do ensino médio por um emprego.

Enquanto 98% de crianças e adolescentes entre 7 e 14 anos estão na escola, 15% dos jovens de 15 a 17 anos desistiram de estudar.

O abandono é refletido no número de matrículas da série final. Se comparado ao da série inicial, o total é 35,5% menor.

De acordo com o Censo Escolar, em 2007 ingressaram no ensino médio 3.440.048 estudantes.

Já em 2009, foram efetuadas 2.218.830 matrículas na série final.

Quando não há reprovações, um aluno conclui o ensino médio em três anos ¿ cursos profissionalizantes podem durar mais ¿ e, pela previsão, as turmas de 2007 se formariam em 2009. Na Região Centro-Oeste, a diferença entre as matrículas é de 37% e no Sul chega a 38,53%.

O Sudeste tem o menor percentual: 34,68%. Nordeste e Norte possuem índices iguais: 35,7%.

¿ O total de matrículas mostra o abandono do ensino médio na última década. A taxa de escolaridade dos jovens entre 15 e 17 é muito baixa. Isso já é sentido até no ensino superior, onde há vagas ociosas. Nas instituições particulares chega a superar 50%. O total só não é pior porque alunos de outras faixas etárias, mais velhos, têm ingressado.

O ensino médio precisa ser repensado para manter os jovens estudando ¿ diz o vicepresidente da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (Anped), João Ferreira de Oliveira.

Nem mesmo a possibilidade de ingressar no mercado de trabalho com salário maior, após a conclusão do ensino médio, é encarada como atrativo por parte dos estudantes. Levantamento feito pelo Centro de Pesquisas Sociais (CPS) da Fundação Getulio Vargas (FGV) aponta que o salário de um profissional de nível médio chega a R$ 1.600, enquanto o de nível fundamental é de cerca de R$ 700.

A maioria dos jovens reclama da falta de estímulo Ainda segundo o CPS, 40% dos jovens entre 15 e 17 anos que abandonaram o ensino alegam total desestímulo. As escolas não seriam atrativas, o material didático, cansativo e o currículo escolar, extenso, dificultando a aprendizagem.

¿ Falta horizonte. Cerca de 40% desistem por falta de incentivo, 27%, por necessidade de trabalhar, e 10,9%, por dificuldades no acesso ¿ explica o pesquisador do CPS, Marcelo Neri, que coordenou o trabalho.

Para Neri, uma boa escola e professores bem remunerados não seriam suficientes para reverter o quadro de evasão. Segundo o pesquisador, o ensino médio possui excesso de conteúdo e precisa se renovar: ¿ O ensino médio é generalista, ensina-se muita coisa e mal. É preciso também pensar a educação com o foco do jovem, que quer retorno imediato ¿ diz Neri, que aponta o ensino técnico como possível saída.

Coordenadora do Programa FGV de Ensino Médio, Marieta de Moraes Ferreira também defende mudanças. Segundo ela, parte dos estudantes chega do ensino fundamental com deficiências e sem condições de aprender o conteúdo. Ao se deparar com as dificuldades e, muitas vezes, com a repetência, o jovem desiste. É o caso de Lenon Pereira, que, em 2007, foi reprovado em Matemática na segunda série do ensino médio e abandonou a escola.

¿ Gostava da escola. Mas é muita matéria, não acompanhava e fiquei reprovado. Penso em voltar. Se tudo der certo, quero fazer o curso de gastronomia e, depois, o de música ¿ diz.

Com nome de cantor, Lenon integrou uma banda de rock ¿ a Desocupados ¿ até o início deste ano, quando ainda morava com a mãe, em Belford Roxo, na Baixada Fluminense. O jovem conta que passou a morar com o pai há três meses, no Santa Marta. Trocou de cidade com a esperança de garantir um emprego que consiga conciliar com a escola. Padeiro, ele ganha um salário mínimo como balconista.

E foi a arte de fazer pão que levou Lenon a sonhar com o curso de gastronomia.

No Rio de Janeiro, a evasão na rede estadual de ensino médio é de 16,86%. Para reduzir o índice, foram criados dois programas: Ensino Médio Inovador e Ensino Médio Integrado à Educação Profissional. O primeiro prevê um currículo com 20% de matérias eletivas, definidas pela escola e que respeita o perfil da região.

Já o segundo possui grade curricular profissionalizante.

Ministro da Educação, Fernando Haddad sugere que os estados mantenham escolas de ensino médio em todas os municípios para combater a evasão.

¿ É importantíssimo que os governos levem o ensino médio a todos os municípios e fique próximo ao jovem. A questão da educação não muda do dia para a noite ¿ diz, referindo-se à dificuldade de locomoção como um fator para a evasão.