Título: Irã restringe ensino e pesquisas em disciplinas ocidentais nas universidades
Autor:
Fonte: O Globo, 25/10/2010, O Mundo, p. 23
Cursos de 12 matérias, incluindo direitos humanos, serão revisados
POLÍCIA REPRIME estudantes em frente à Universidade de Teerã, em 2009
TEERÃ. O Irã impôs restrições ao ensino e a pesquisas acadêmicas que envolvem 12 matérias consideradas baseadas em correntes de pensamento ocidentais e ¿incompatíveis com os ensinamentos do Islã¿, informou ontem a rádio estatal iraniana. A partir de agora, segundo informou o Ministério da Educação, está proibida a criação de novos cursos em áreas como Direito, Filosofia, Administração, Psicologia, Ciência Política e ¿ o mais preocupante para os moderados ¿ Estudos sobre a Mulher e Direitos Humanos. Até 70% das matérias e das pesquisas preexistentes dentro dessas áreas serão revisadas. No ano passado, estudantes das faculdades iranianas tiveram participação ativa nos protestos contra a reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad.
Abolfazl Hassani, autoridade do Ministério da Educação iraniano, afirmou ao jornal ¿Arman¿ que esses temas são extremamente ligados à cultura ocidental e que, por isso, o modo com que eles são ensinados nas universidades iranianas será revisto. Alas mais radicais do governo do Irã ainda dizem que o estudo dessas disciplinas nas universidades, além de seguir a base das instituições do Ocidente, é uma clara tentativa de prejudicar o estado islâmico por influenciar os jovens.
¿ O conteúdo dessas ciências é baseado na cultura ocidental. A revisão será com a intenção de torná-las compatíveis com os ensinamentos islâmicos ¿ afirmou Hassani.
A decisão aparentemente foi baseada em declarações dadas no ano passado pelo líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei, de que essas disciplinas poderiam causar dúvidas religiosas. Khamenei, que tem a palavra final em todos os assuntos do Estado iraniano, pediu aos funcionários do Ministério da Educação que estudassem a modificação do currículo universitário. Segundo dados oficiais, atualmente 2 milhões dos 3,5 milhões de estudantes iranianos seguem carreiras ligadas a ciências sociais e humanas.
¿ Muitas disciplinas na área de humanas são baseadas em princípios fundados no materialismo descrente aos ensinamentos divinos islâmicos ¿ disse Khamenei, em um discurso relatado pela mídia estatal iraniana.
O papel dos estudantes iranianos foi decisivo nas manifestações contra Ahmadinejad, acusado pela oposição de ter se reeleito presidente em meio a fraudes. Desde assumiu o poder, em 2005, ele impulsionou uma retomada dos fundamentalismo dos anos 80. Em 2006, dúzias de professores de universidades liberais foram aposentados, gerando fortes protestos por parte dos estudantes.
Ladrão tem mão amputada como punição
Num outro episódio, a rádio estatal iraniana informou ontem que um ladrão teve sua mão amputada por autoridades diante de outros prisioneiros em Yazd, a 670 quilômetros da capital Teerã. O ladrão, de 32 anos, cometeu quatro roubos e outros crimes. A medida teria sido mais um passo na tentativa de se restabelecer este tipo de punição como algo comum no país.
Cortar as mãos de ladrões é uma medida permitida pela lei islâmica, mas sua utilização vem sendo bastante rara no Irã nos últimos anos. No entanto, esta é a segunda amputação neste mês. Na semana passada, um juiz aplicou a mesma punição a um homem que assaltou uma loja de doces, mas a decisão ainda pode ser revogada diante de uma apelação. No caso de ontem, ainda não se sabe a identidade do prisioneiro nem detalhes sobre o procedimento.