Título: É perigoso falar de surto em queda
Autor: Cruz, Luiz Paul
Fonte: O Globo, 27/10/2010, O Mundo, p. 32

Comandante no Haiti diz que processo eleitoral está tranquilo apesar do cólera

ENTREVISTA SÃO PAULO. Desde março no comando das Forças Militares da Missão de Estabilização das Nações Unidas para o Haiti (Minustah), o general brasileiro Luiz Guilherme Paul Cruz afirma que é pouco cauteloso dizer que o surto de cólera esteja em queda.

Mas garante que todas as atenções estão voltadas para a contenção da doença, que já matou cerca de 300 pessoas, e buscam evitar que se espalhe no país devastado pelo tremor que, em janeiro, fez 230 mil mortos. A reconstrução é um processo difícil e longo, mas os recursos ainda não chegaram ao nível prometido, diz, de Porto Príncipe.

Gilberto Scofield Jr.

O GLOBO: O surto estaria se estabilizando?

GENERAL LUIZ PAUL CRUZ: É perigoso e pouco cauteloso falar que o surto está em curva descendente. O que eu tenho ouvido dos médicos é que ainda estão estabelecendo um padrão da doença para fins comparativos e para apresentação de diagnósticos. Há muito trabalho ainda sendo feito

O surto chegou à capital, Porto Príncipe?

GENERAL CRUZ: Há cinco casos registrados, mas, segundo as fontes médicas, é gente que teria vindo de fora da cida

Como os militares agem?

GENERAL CRUZ: O efetivo de quase nove mil está sendo usado no apoio logístico, como transporte de médicos, remédios e equipamentos. Alguns batalhões, como o argentino, estão construindo centros de tratamento de campanha. Nossa Companhia de Engenharia (há 2.200 militares brasileiros no Haiti) acaba de entregar um centro médico em Saint Marc (cem quilômetros ao norte da capital), e já começamos campanhas de prevenção e conscientização em Porto Príncipe.

As eleições gerais de 28 de novembro estão garantidas?

GENERAL CRUZ: O processo eleitoral tem sido tranquilo, e tudo indica que permanecerá assim.

É claro que há rumores de ameaças, como em qualquer processo eleitoral. Teremos um imenso trabalho de logística para garantir a segurança, a integridade das urnas.

E como vão os trabalhos de reconstrução do país?

GENERAL CRUZ: Reconstrução é um processo difícil e longo que deve buscar atender primeiramente aos anseios da população.

O governo tem um plano de reconstrução, que é tocado pela comissão interina de reconstrução, supervisionada pelo ex-presidente Bill Clinton e pelo primeiroministro Jean Max Bellerive.

Já há projetos aprovados esperando apenas os recursos. A ideia é distribuir projetos importantes em áreas fora de Porto Príncipe para reduzir a pressão populacional na capital.

O que já virou realidade?

GENERAL CRUZ: Infelizmente, os recursos ainda não chegaram aos níveis prometidos. Não sei o percentual que entrou no caixa do governo, mas não é muito alto.

Há também dificuldades relativas ao marco legal do país. Dificuldades em termos de propriedade, registros de terra, retorno do investimento.

A espera do resultado das eleições atrasa as obras?

GENERAL CRUZ: Não posso dizer que sim ou que não. Há quem espere um novo governo, com legitimidade nas urnas, para apresentar um projeto, incluindo um Congresso que hoje não existe. Mas há projetos tocados, como o da hidrelétrica brasileira.

O Brasil apoia o Haiti e não está esperando o resultado das eleições para contribuir