Título: O xerife do Dops que foi carcereiro de Lula
Autor:
Fonte: O Globo, 27/10/2010, O País, p. 15
Ex-diretor-geral da PF e da Receita, senador Romeu Tuma morreu como aliado do presidente, aos 79 anos
SÃO PAULO. Filho de imigrantes sírios, o jovem Romeu Tuma não via seu futuro atrelado à loja de vestidos de noiva tocada pelos pais, Zike e América, na tradicional Rua 25 de Março, a mais concorrida via de comércio popular da capital paulista. Em vez disso, prestou concurso para investigador do Departamento de Ordem Política e Social (Dops) do estado. Iniciava ali uma carreira pública de 59 anos.
A projeção profissional começou em 1967, quando se formou em Direito pela PUC e virou delegado. Trabalhou como assessor do delegado Sergio Paranhos Fleury no Dops de São Paulo, órgão que passou a dirigir em 1975. Como tal, atuou no combate a organizações políticas clandestinas de esquerda e a movimentos grevistas.
Em 83, com o fim do Dops, foi para a Superintendência da Polícia Federal em São Paulo, para pouco depois virar diretor-geral do órgão, onde ficou até 1992, no governo Fernando Collor. Em 84, prendeu o dirigente mafioso italiano Tommaso Buscetta.
Em 85, com informações da polícia alemã, Tuma localizou no cemitério de Embu, em São Paulo, a ossada do carrasco nazista Josef Mengele.
Na gestão Collor, acumulou o cargo de diretor-geral da Polícia Federal com o de secretário da Receita Federal. Foi nesse período que a Receita invadiu a sede da Folha de S.Paulo, alegando uma investigação fiscal o jornal disse que era por causa de reportagens críticas a Collor durante a campanha.
Em 1994, elegeu-se senador, com mais de 5,5 milhões de votos. O segundo mandato viria em 2002, com 7,27 milhões de votos. Em 2000, ficou em quarto lugar na disputa pela prefeitura paulistana pelo PL, numa eleição vencida por Marta Suplicy.
Apelidado de Xerife, tinha um perfil típico de policial.
Nas eleições deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, encarcerado na instituição entre abril e maio de 1980, sob alegação de atentar contra a Lei de Segurança Nacional, deu um depoimento a favor de Tuma. Durante a prisão de Lula ainda como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Tuma, como diretor do Dops, permitiu que ele deixasse a cadeia para ir ao enterro da mãe, dona Lindu. O senador morreu como aliado do presidente.
Mesmo internado desde 1ode setembro, sem poder fazer campanha, ele recebeu 3,8 milhões de votos, ficando em quinto lugar na disputa pelo Senado. O suplente Alfredo Cotait Neto cumprirá o restante do mandato atual, até 31 de janeiro de 2011.
Tuma morreu ontem, aos 79 anos, de falência múltipla dos órgãos, às 13h, no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.
O senador, que foi internado para tratar uma faringite, foi operado no último dia 2 e recebeu um coração artificial.
O neurologista Rogério Tuma, filho do senador, disse que a cirurgia deu certo: O coração artificial funcionou. Quando ele chegou ao hospital, estava desidratado e com insuficiência renal. Fomos corrigir isso, e o coração começou a dar sinais de falência. Então foi indicada a colocação de coração artificial. Mas, pelo tempo, pela idade, uma infecção que adquiriu acabou com a piora dos órgãos, e ele não resistiu.
O corpo do senador foi velado na Assembleia Legislativa de São Paulo e será enterrado hoje às 15h, no Cemitério São Paulo. Ele deixa a mulher, Zilda Dirane Tuma, e quatro filhos: Rogério, o ex-secretário nacional de Justiça Romeu Tuma Jr., o ex-deputado federal Robson Tuma e o cirurgiãodentista Ronaldo Tuma, além de nove netos.