Título: As estradas que também levam ao crescimento
Autor: Magalhães-Ruether, Graça
Fonte: O Globo, 28/10/2010, O País, p. 14
Alemanha tem mais de 12 mil quilômetros de rodovias, que evitam o trânsito pesado nas cidades; vias permitiram uma melhora na economia
AS AUTOESTRADAS da Alemanha começaram a ser projetadas nos anos 20. A construção das rodovias ganhou impulso com o nazismo e as vias tiveram papel importante na recuperação do país após a Segundo Guerra
BERLIM. Poucos projetos são tão associados à Alemanha quanto a rede de autoestradas, afirma Richard Vahrenkamp, autor do livro ¿The German Autobahn¿, lançado recentemente, em inglês, pela editora Eul, sobre a história pioneira de uma rede de rodovias que já nos anos 30 permitia ao motorista percorrer quase todo o país sem precisar entrar nas cidades. A Alemanha tem mais de 12 mil quilômetros de autoestradas, a terceira maior rede do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e da China. A administração dessa malha rodoviária é do governo federal, por meio do Ministério dos Transportes.
¿ Já naquela época havia a previsão do crescimento do tráfego de veículos, também de cargas e da necessidade de colocar o tráfego pesado fora dos centros das cidades ¿ afirma Vahrenkamp, de 64 anos, professor da Universidade de Kassel.
De acordo com o economista, sem essa rede de estradas o ¿milagre econômico¿, depois da Segunda Guerra Mundial, quando o país, destruído e falido, conseguiu rapidamente se recuperar e tornar-se uma potência econômica, não teria sido possível.
O projeto de construção da rede de autoestradas começou nos anos 20 e ganhou grande impulso na era nazista, quando foram construídos mais três mil quilômetros. Na época, havia poucos veículos. O projeto das autoestradas era para os nazistas mais uma questão de prestígio, exagerado na sua monumentalidade.
Autoestrada não têm cruzamentos
Mas o fascínio pelas autoestradas era um elemento em comum entre os governos da Alemanha. Durante a ditadura de Adolf Hitler, foi determinada a construção, a partir de 1933, de uma moderna autoestrada ligando Munique, na Baviera, a primeira cidade alemã onde viveu, a Salzburg, na Áustria, seu país de origem.
Também a democracia, que começou após a guerra no ocidente da Alemanha com Konrad Adenauer, o ex-prefeito de Colônia e primeiro chefe de governo da Alemanha Ocidental, tinha um grande programa de construção de estradas com várias pistas e sem cruzamentos. Enquanto no ocidente foram rapidamente construídos mais seis mil quilômetros de autoestradas, no leste, dominado pelo regime comunista, havia apenas uma única rodovia, entre Berlim e Rostock, no litoral do Báltico.
Adenauer era um grande impulsionador do projeto das autoestradas, o único meio possível de desenvolvimento da infraestrutura na região da Renânia, que fica próxima à França, onde o aumento do tráfego de cargas não podia ser coberto pelas ferrovias por causa das dívidas de reparação para com a França e a Bélgica em consequência da Primeira Guerra Mundial, perdida.
¿- Depois da Segunda Guerra, também perdida, a rede de autoestradas, ainda hoje uma das melhores da Europa, teve porém um papel fundamental no desenvolvimento econômico, pois tornava possível o aumento forte da motorização sem a limitação das estradas estreitas que passavam por dentro das cidades ¿ afirma Vahrenkamp.
Enquanto as estradas estaduais e federais podem até ser largas mas costumam ter cruzamentos, as autoestradas são como pistas múltiplas de alta velocidade e não têm cruzamentos. O limite de velocidade existe em alguns trechos mais perigosos ou durante a realização de obras. As autoestradas foram usadas assim também pelo lobby da indústria automobilística. Na opinião do analista, ele pode se desenvolver na Alemanha com essa vantagem sobre os países vizinhos, que tiveram mais tarde uma rede completa.
Marcas famosas, como os carros da marca Porsche e Mercedes-Benz (Daimler), usavam como temas publicitários para as suas campanhas de exportação o sentimento da liberdade permitido pela alta velocidade de até 220 quilômetros por hora nas autoestradas alemãs. Nos anos 80, os Estados Unidos eram o país que mais importavam esses carros, embora a velocidade fosse limitada nas vias americanas.
Da mesma forma, todas as tentativas de criação de uma lei de limite da velocidade foram impedidas pelo lobby da indústria automobilística. Nem quando o partido ¿Os Verdes¿ fez parte do governo federal, entre 1998 e 2005, foi possível a criação dessa lei. Um limite de velocidade é visto pelo partido ecológico como importante não apenas em função da segurança: quanto maior é a velocidade, maior também é a liberação de gases poluidores.
¿- A indústria automobilística propaga que os carros que produzem são os mais seguros e também as nossas autoestradas são as mais seguras do mundo, de modo que mesmo a alta velocidade não oferece perigo ¿ lembra Vahrenkamp, que lembra, porém, que essa velocidade sem limite só é hoje possível em trechos mais desertos, como no estado de Mecklemburgo, na região báltica do leste alemão ou no leste da Baviera.
Pedágio para ampliar vias
Esta malha rodoviária se prepara para crescer. Para financiar a construção de mais 800 quilômetros de vias e a ampliação com mais pistas de 1.600 quilômetros já existentes, o governo começou a arrendar 370 quilômetros de estradas no ano passado, em seis projetos espalhados por todo o país. Como é o caso da A1 ¿ autoestrada federal número um. A empresa privada financia a ampliação da via, cuida da manutenção, inclusive retirar o gelo e a neve durante o inverno, e, em contrapartida, tem o direito de arrecadar o pedágio dos caminhões durante 30 anos. No caso dessa via, por onde passam 75 mil caminhões, apenas no trecho entre Hamburgo e Bremerhaven, por ano, trata-se de um negócios lucrativo.
O pedágio para caminhões existe na Alemanha desde 2005. Para automóveis, não há cobrança de tarifa. Críticos do projeto advertem para o perigo do aumento dos acidentes. No ano passado, ocorreram 18.394 acidentes graves e quatro mil pessoas morreram.