Título: As ideias por trás das primeiras palavras da presidente
Autor: Damé, Luiza; Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 02/11/2010, O País, p. 14

"Desenvolvimento", "povo", "mulheres" e "brasileiras" foram o foco do primeiro discurso de Dilma após eleita

A desenvolvimentista Dilma Rousseff elegeu temas nacionalistas e o apelo à unidade do país para inspirar sua estreia nos discursos como presidente do Brasil, com clara referência à herança popular do presidente Lula. Para começar a pontuar sua autonomia com relação ao padrinho, porém, destacou a diferença de ser mulher.

O GLOBO aplicou o discurso de Dilma na noite de domingo a um programa contador de palavras, e extraiu daí os pontos-chave de seu primeiro discurso. Há ênfase em quatro palavras: país (citada 18 vezes), todos (17 vezes), povo (11 vezes) e desenvolvimento (seis vezes).

O desenvolvimento entra aí para se ligar à imagem que a campanha de Dilma e o governo Lula buscaram: a de desenvolvimento dirigido por projeto de Estado, em que os símbolos foram a Petrobras e o pré-sal (esta dita quatro vezes). O que fizeram com o pré-sal foi dizer: agora não é mais defender o petróleo, mas o patrimônio do país. Foi a forma de atualizar a discussão da privatização, que sem isso poderia ficar datada observa Afonso de Albuquerque, professor de Estudos de Mídia da UFF.

Mas falar de desenvolvimento ainda mais ligando o assunto a todos e povo também é uma forma de cutucar a memória política dos eleitores, diz Albuquerque: O discurso do desenvolvimento mobiliza, porque traz a imagem de ir para frente, que se relaciona aos grandes políticos da memória brasileira, Getulio Vargas e Juscelino, ligados a obra, refinaria, e, no caso do Getulio, à proteção social. Também atualiza um discurso dos anos 1950 de orgulho nacional. O trabalho retórico fica mais fácil quando ligado ao que já está no imaginário político das pessoas.

Dilma citou Lula cinco vezes (esta é a hora de prestar homenagens a ele, porque quando ela estiver no governo vai ter de ter autoridade pela autonomia, avalia Albuquerque). Mas também quis marcar o ineditismo de seu feito: falou de mulheres (três vezes), amigas (uma vez) e brasileiras (cinco vezes).

A gente pode fazer analogia com o que o Lula destacou ao chegar à Presidência, o fato de ser o primeiro operário. Para parte do eleitorado, a chegada da primeira mulher representa a tendência de evolução da democracia brasileira que foi iniciada pelo Lula destaca a cientista política Alessandra Aldé, professora de comunicação da Uerj.

Falar para as mulheres é falar o que Dilma é que Lula não é completa Afonso de Albuquerque.

É uma forma de marcar sua distinção do governo que ela está sucedendo, como um elemento particular seu.

Deus, aborto e corrupção, assuntos que pautaram a campanha, em especial no segundo turno, ficaram fora do primeiro discurso. Ela mesclou o discurso com acenos à oposição, depois de uma campanha de ataques, e aos aliados. A referência a partidos foi feita quatro vezes.

As menções da palavra partidos, para mim, mostram o que vai marcar o primeiro momento do governo Dilma: com composição de maioria mais fácil, em que ela vai governar com a coligação que lhe deu base diz o professor da UFF.

Já palavras como democracia, dita cinco vezes, e liberdade, lida três vezes (Dilma defendeu, por exemplo, a liberdade religiosa e de imprensa), entraram para dar carga positiva ao discurso da presidente eleita, aponta Alessandra Aldé: São palavras que, por si, têm conotação positiva diz a cientista política, para quem, da mesma forma, não foi negativo a petista não ter citado a palavra Deus. Porque a predominância desse tema na campanha não foi lá algo muito positivo.