Título: Após a vitória, o recolhimento de Lula
Autor: Damé, Luiza; Oliveira, Eliane
Fonte: O Globo, 02/11/2010, O País, p. 14

Presidente se cala, depois de anunciada a eleição de Dilma; comemorações pela escolha da aliada, só de forma privada

Luiza Damé, Eliane Oliveira e Fernanda Krakovics

BRASÍLIA. Depois de eleger sua candidata Dilma Rousseff, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu se recolher e passar dois dias descansando no Palácio da Alvorada, na companhia da primeira-dama Marisa Letícia, de familiares e amigos. Desde que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) declarou a vitória de Dilma, Lula não se manifestou sobre o resultado do segundo turno.

Lula voltará a despachar amanhã no Palácio do Planalto.

Ele participará da reunião de coordenação de governo e receberá ministros para audiências em seu gabinete. Ontem o presidente passou o dia no Alvorada, não recebeu visita de ministros e assessores.

Lula aproveitou a tarde quente de Brasília para pescar no Lago Paranoá, acompanhado do presidente de Itaipu, Jorge Samek.

Amigos do casal, Samek e a mulher Maria Olívia estão hospedados no Alvorada desde domingo à tarde.

Segundo auxiliares, o presidente vai se manter mais discreto porque entende que o momento é de Dilma, e para ela devem se voltar as atenções.

Por isso, Lula só deverá falar sobre a vitória da sua candidata amanhã ou depois.

Para o futuro do presidente, especulações sobre Unasul

O presidente disse a auxiliares que iria descansar nos dois dias de feriado ontem, em homenagem ao dia do servidor público, e hoje, Finados e, se precisasse resolver algum assunto importante os chamaria ao Palácio. O domingo do presidente foi longo. Depois da apuração, Lula recebeu Dilma e aliados no Alvorada para comemorar a vitória.

A comemoração durou até 1h de ontem. Dilma saiu pouco depois da meia-noite, mas alguns ministros e governadores ficaram até mais tarde. Além disso, o governador eleito do Distrito Federal, Agnelo Queiroz, ex-ministro de Esporte, chegou ao Alvorada depois que Dilma saiu.

O futuro de Lula ainda é incerto.

Há uma corrente entre integrantes da base do governo que considera oportuno que o presidente ocupe a secretaria-geral da União das Nações Sul-Americanas (Unasul), aberta com a morte do argentino Néstor Kirchner, há uma semana. Essa possibilidade não encontra, neste momento, respaldo no Palácio do Planalto e no Itamaraty, mas a aposta é que o assunto será tratado claramente no próximo dia 26, em Georgetown, durante reunião de chefes de Estado da Unasul, quando a sucessão de Kirchner será o ponto central da pauta. Lula estará presente nesta reunião.

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, e o assessor para Assuntos Internacionais da Presidência da República, Marco Aurélio Garcia, negam essa possibilidade. Nos bastidores, fontes da área diplomática afirmam que ir para a Unasul é pequeno demais para o tamanho do presidente Lula e ele teria que ir para algo maior.

O presidente deixou claro que não está querendo nenhum posto quando sair afirmou Marco Aurélio Garcia.

Não ouvi falar nisso desconversou Amorim.

Mas integrantes da base do governo que defendem essa tese alguns preocupados com o fato de Lula ficar rondando o governo Dilma argumentam o peso que o Brasil tem no continente e pelo fato de a América do Sul ter sido sempre uma das prioridades da política externa de seu governo.

Membro do Parlamento do Mercosul, o deputado Dr. Rosinha (PT-PR) é um dos que avaliam que o posto seria adequado para Lula.

Algum país vai insinuar o nome do Lula, até porque ele tem representatividade para isso disse o parlamentar.

O que não falta é sugestão de atividades para Lula depois que ele deixar a Presidência da República.

Na semana passada, o secretário-executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas e diretor da Coppe-UFRJ, Luiz Pinguelli Rosa, sugeriu a Lula que, depois de deixar o cargo, ele se dedique a esse tema.

Lula vai à COP-16, Conferência do Clima que será realizada no fim do mês, em Cancún. Também estará, sempre ao lado de Dilma, na reunião da Unasul e do Mercosul, que acontecerá no Brasil este semestre.

Outra forte especulação é que Lula se candidataria ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas, no lugar do sul-coreano Ban Ki-moon, que conclui o mandato dele apenas no fim de 2011. Líderes americanos, como o boliviano Evo Morales, defendem publicamente a escolha do brasileiro.