Título: Escolha para o BC sinalizará política cambial
Autor: Oliveira, Eliane; Barbosa, Flávia; Beck, Martha
Fonte: O Globo, 02/11/2010, O País, p. 13

Economistas ligados a Dilma defendem juros mais baixos

BRASÍLIA. A diretoria do Banco Central será escolha estratégica para a política econômica do mandato de Dilma Rousseff.

Economistas próximos à presidente eleita defendem que, com a necessidade de segurar o derretimento do dólar, a nova equipe esteja disposta a testar um patamar de juros mais baixo para o Brasil. O gancho para a mudança de orientação que não deve ser confundida com baixar a Taxa Selic (juros básicos) na canetada, dizem interlocutores é a guerra cambial global.

Os mais altos juros do mundo (a Selic está em 10,75% ao ano) atraem capital estrangeiro em massa, contribuindo para a queda do dólar frente ao real. Isso torna os produtos brasileiros mais caros no exterior, atrapalhando as exportações. Quanto menos vendem nossos exportadores, mais aumenta a chance de desemprego e de perda de vigor de investimentos nas indústrias e na agropecuária.

Esses economistas calculam que há espaço para que a taxa real de juros (sem inflação), hoje em cerca de 6% ao ano, chegue ao fim de 2014 na casa dos 2%.

Só esta sinalização já ajudaria na formação de expectativas sobre o valor futuro do dólar.

A permanência de Henrique Meirelles à frente do BC é, desta forma, vista como incompatível com uma nova diretriz para a autoridade monetária.

Neste segundo mandato de Lula, a Fazenda e o BC divergiram sobre quão ousada a política monetária podia ser. A equipe do ministro Guido Mantega sempre defendeu que os juros podiam cair mais sem comprometer o controle da inflação.

O conservadorismo do BC sempre venceu a disputa. Agora, com a convicção desenvolvimentista de Dilma e o gancho da guerra cambial, acreditase que é hora de ousar. Uma das possibilidades é o BC de Dilma não mirar unicamente na inflação, como é feito desde os tempos de Armínio Fraga.

Por exemplo, a nova equipe incluiria indicadores como meta de emprego, a exemplo do que existe nos Estados Unidos.

A expectativa é que vá para o BC alguém que não seja ligado apenas ao mercado ou totalmente acadêmico, com capacidade para conduzir um país com juros baixos e gastos do setor público ainda elevados afirmou uma fonte da área econômica.

O diretor de Normas do BC, Alexandre Tombini, que tem um viés razoavelmente desenvolvimentista e foi treinado para substituir Meirelles quando este pensava em disputar o governo de Goiás, é uma opção considerada. Meirelles já disse que só fica no BC até 31 de dezembro. Mas não quer ter seu legado rifado pela escolha de nomes associados à oposição à sua administração, como os de Luciano Coutinho, presidente do BNDES, e Nelson Barbosa, secretário de Política Econômica da Fazenda.

(Eliane Oliveira, Flávia Barbosa e Patrícia Duarte).