Título: Lula: Serra sai menor desta campanha
Autor: Farah, Tatiana
Fonte: O Globo, 01/11/2010, O País, p. 16

Presidente diz que Dilma foi vítima de preconceito e acusa a oposição de incitar o ódio e politizar a religião

SÃO BERNARDO DO CAMPO. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou a cautela de lado e confiou nas pesquisas de intenção de voto para afirmar, ontem de manhã, que José Serra (PSDB) sairia ¿menor¿ das eleições.

Ele acusou o tucano de fazer uma campanha agressiva, com ¿incitação do ódio¿ e ¿politização da religião¿. Lula, que votou em São Bernardo do Campo, afirmou que seu partido sai fortalecido das eleições. Ele negou que a campanha tenha sido virulenta ¿de parte a parte¿: ¿ Não fale ¿de parte a parte¿.

Essa campanha foi muito mais violenta de uma parte para outra.

Sinceramente, acho que o candidato Serra sai menor desta campanha. Sai menor. Porque a agressividade deles com a companheira Dilma Rousseff é uma coisa que eu imaginava que tivesse terminado na política brasileira ¿ disse Lula, repetindo uma frase do tucano Aécio Neves, que afirmara que o presidente sai menor do que entrou nesta campanha.

O presidente disse ainda que Dilma foi vítima de preconceito.

¿ É uma coisa delicada que aconteceu nesta campanha: a questão da disseminação do ódio e do preconceito. Em política, isso é muito grave. Penso que, terminadas as eleições, os partidos políticos vão ter de fazer uma reflexão do que aconteceu.

As igrejas vão ter de pensar o seu papel.

Questionado sobre como o PT sairia destas eleições, disse ¿que sai mais fortalecido¿. Lula reafirmou que não participará do governo Dilma e que quer continuar viajando pelo país. Sobre 2014, desconversou: ¿ Não sei se estarei nem vivo em 2014. Estou com 65 anos, não posso ficar fazendo prognóstico para muito tempo. Não tenho vontade (de concorrer). Minha vontade agora é de descansar.

O presidente disse que, em suas cinco campanhas presidenciais, não foi tão agressivo como o PSDB este ano.

¿ Das cinco vezes, eu perdi três e vocês nunca me viram com a agressividade que teve nesta campanha.

Abaixo, as principais declarações de Lula, antes da confirmação da vitória de Dilma:

MOMENTO MÁGICO: O importante hoje é que mais uma vez o povo brasileiro está consolidando o processo democrático.

Todo mundo sabe que eu trabalhei para minha candidata.

O Brasil precisa continuar este momento extraordinário que está vivendo, de crescimento, um momento quase mágico para um país que passou o século 20 conhecendo ditadores.

FORA DO GOVERNO: Não existe nenhuma possibilidade de um ex-presidente participar de um governo. Dilma eleita precisa ter um governo que seja a cara dela, o jeito dela. E tem de ter pessoas em que ela confie.

Ao ex-presidente da República, só cabe torcer para que a Dilma faça mais do que ele fez.

TAREFAS: Nunca haverá tempo para uma pessoa que construiu a relação que eu construí, seja política, sindical, com o movimento social, com empresários, ficar parada. Terei muita tarefa.

Agora, a única coisa que não quero é ter tarefa dentro do governo. E também não dentro do partido, não quero voltar para dentro do partido.

SAÍDA: Quando entrei no governo, sabia que ia sair. O importante é isso: você tem dia para entrar e para sair. É uma coisa importante na democracia. Estou saindo confortável.

VAIDADE: Todos os presidentes que passaram pelo Brasil gostariam de viver um momento como esse (aprovação de 83%). Eu sei que tem gente que não gosta que seja assim.

NO GOVERNO DILMA: Vejam, sou companheiro da Dilma, gente. É lógico que vou discutir com a Dilma muitas coisas.

Agora, ela vai tomar posse dia 1ode janeiro. Em janeiro eu desembarco, sabe?

PMDB: O PMDB não toma conta do governo. Quando você tem um governo de coalizão, você monta o governo de acordo com a correlação de forças políticas da base de apoio.

PSDB: Daqui para a frente é uma outra conversa. O partido é que vai se sentar com o PSDB.

SER HUMANO POLÍTICO: Quero continuar viajando o Brasil, ajudando a política. Eu sou um ser humano político.

TIRIRICA: Acho uma cretinice isso que estão tentando fazer com o Tiririca, desrespeitando um milhão e meio de pessoas que votaram nele. Então, que não deixassem ser candidato.

NORMALIDADE: Espero que eu esteja preparado para o dia 2, quando me levantar de manhã e não tiver ninguém para xingar.

Só a Marisa. Ela com muito mais poder do que eu. Eu vou voltar à minha normalidade. O que estou vivendo agora é anormal, que é o exercício de um mandato.

IMPRENSA: Acho que determinados setores de comunicação erram quando tentam nivelar a política por baixo porque pobre do país em que a gente não tenha a liberdade democrática, a pluralidade política.

RELIGIÃO E ABORTO: Eu era religioso antes, continuo sendo e vou ser no futuro. Agora, acho que tem uma coisa grave que é você tentar politizar a religião. Vi uma coisa: a tentativa de explorar uma fala do Papa contra o aborto, contra a Dilma. Primeiro, a Igreja Católica é contra o aborto desde que ela existe. Então, não tem novidade.