Título: Depois da campanha, a bonança
Autor: Gois,Chico de ; Damé, Luiza
Fonte: O Globo, 04/11/2010, O Pais, p. 3
De braços dados, um relaxado Lula e uma sorridente Dilma surgiram para a entrevista fora da agenda BRASÍLIA. A presidente eleita, Dilma Rousseff, já conhecia o caminho e a sala do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas foi a primeira vez em que entrou no gabinete com a sensação de que a cadeira ocupada por ele será sua, de fato, a partir de 1º de janeiro. Por pouco mais de uma hora, a eleita e seu padrinho político se encontraram quase a sós no Gabinete presidencial. Ao lado dos dois, estava apenas o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Franklin Martins. Depois, Lula e Dilma desceram a rampa do terceiro andar para o Salão Nobre, no segundo andar, de braços dados, rumo à entrevista coletiva.
A audiência de Dilma não estava inicialmente prevista na agenda de Lula. O presidente trocou a reunião de coordenação, que costuma fazer semanalmente, para receber a futura presidente. O encaixe tinha também uma explicação prática: Dilma viajaria para descansar e só voltará a Brasília segunda-feira. Ela resistiu aos apelos dos repórteres e, em tom de brincadeira, disse que não anunciaria o local porque, caso contrário, haveria vários fotógrafos à sua espera.
Quando Lula e Dilma desceram a rampa interna do Planalto, havia atrás deles um séquito de personagens que querem se manter no poder ou ascender a ele: ministros do atual governo, como Paulo Bernardo (Planejamento), Guido Mantega (Fazenda) e Alexandre Padilha (Relações Institucionais), seguidos pelos auxiliares de Dilma na campanha, como José Eduardo Cardozo (PT-SP) e Gilles Azevedo, e a senadora Ideli Salvatti (PT-SC), derrotada para o governo de Santa Catarina.
Os dois demonstraram bom humor. O presidente recorreu a suas metáforas futebolísticas para falar sobre o que espera do novo governo e qual será sua atuação como ex-presidente. Dilma sorria quase o tempo inteiro. A presidente eleita, bem mais relaxada do que nos tempos da campanha, também demonstrou paciência para responder a todas as perguntas, inclusive as inevitáveis e repetitivas sobre o futuro Ministério.
Mesmo sem combinar previamente, criador e criatura acabaram dividindo, de igual para igual, o tempo da entrevista coletiva: cada um falou por 30 minutos. Ao se despedir de Lula, Dilma disse que o verá em Seul, na reunião do G-20, no próximo dia 12, sua estreia no cenário internacional como futura presidente do Brasil.
Depois de falar e falar muito , Lula deixou Dilma Rousseff sozinha para sua entrevista. Voltou para o terceiro andar, para dar continuidade ao final do seu governo.