Título: Parlamentares contestam representante da Unesco
Autor: Braga, Isabel
Fonte: O Globo, 11/11/2010, O País, p. 15
Acho deplorável e uma petulância sugerir a supressão de competência do Congresso Nacional", diz deputado
BRASÍLIA. Parlamentares criticaram ontem a sugestão de representantes da Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (Unesco) de tirar o Congresso Nacional do processo de concessão de outorgas de rádio e TV no Brasil.
Ao apresentar anteontem um diagnóstico sobre a maneira como o país lida com essa questão e outras que envolvem as comunicações, representantes da Unesco condenaram a interferência política nas concessões e defenderam que a atribuição deveria ser de uma agência reguladora.
Para o líder do DEM na Câmara, Paulo Bornhausen (SC), a Unesco optou por um viés ideológico e politizou questões internas do país. Ele estranhou a entidade fazer um relatório sobre esse tema no Brasil e classificou como petulância a sugestão.
¿ Qual é o valor real de um relatório desses para reafirmar a posição defendida pelo ministro Franklin Martins? Acho deplorável e uma petulância sugerir a supressão de competência do Congresso Nacional.
Foi uma encomenda do ministro que cuida das relações do governo com a mídia.
Bornhausen disse ainda que quem deve decidir o que é melhor para a radiodifusão e as novas mídias no país, além de discutir se é preciso alterar a atual regra de concessão de rádios e TVs, é o Congresso.
Para o deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ), faltou aos representantes da Unesco o conhecimento da legislação brasileira que regula as concessões.
Ex-ministro das Comunicações no governo Lula, Miro disse que, antes da Constituição de 1988, o sistema de outorga era diferente, e políticos eram premiados com concessões.
Desde 1988, as outorgas são feitas por meio de licitações.
E, no governo Lula, Miro tornou pública a relação de empresas que possuem outorgas.
¿ É tudo licitado, o Congresso não dá nada, nem o Executivo.
É abusivo o que ocorreu antes de 1988, mas essa não é mais a regra. O que vem para o Congresso é a renovação da concessão. E apenas para verificar se foi feita de forma correta, em sessões abertas ao público e transmitidas pela internet.
A Constituição determina que só há validação com o ato dos dois poderes. E existe controle da Anatel ¿ disse Miro.
O deputado ironizou a sugestão feita pelo representante da Unesco: ¿ Deve se tratar de uma boa pessoa a quem não foi encaminhado o conjunto das leis brasileiras.
O líder do PT na Câmara, Fernando Ferro (PE), discorda da posição dos colegas. Para ele, a sugestão da Unesco é boa e poderá evitar que parlamentares legislem em causa própria: ¿ Não acho democrático o Congresso dar a palavra final sobre isso. Sabemos que muitos parlamentares têm sistemas de rádio e TV, embora coloquem laranjas como proprietários.
O Congresso se manifestar sobre isso tem facilitado o tráfico de influência para as concessões caírem nas mãos de esquemas empresariais e políticos. Deveríamos reavaliar todas as concessões ¿ disse Ferro.
O tucano Jutahy Júnior (BA) disse que o mecanismo de controle criado em 1988 colocou um freio no sistema de distribuição de concessões de rádio e TV em troca de apoio político: ¿ Hoje temos licitações.
Não vejo nesse atual modelo nada que impeça a liberdade de imprensa.