Título: Nome de Palocci volta a ganhar força no Planalto
Autor: Camarotti, Gerson
Fonte: O Globo, 14/11/2010, O País, p. 9

Depois da resistência inicial, Dilma reconsidera possibilidade de indicar ex-ministro para núcleo central do governo

BRASÍLIA. O nome do ex-ministro da Fazenda e deputado Antonio Palocci (PT-SP) voltou a ganhar força para o ocupar um cargo de destaque no Palácio do Planalto a partir de janeiro.

Interlocutores da presidente eleita, Dilma Rousseff, perceberam uma grande movimentação externa, de setores da sociedade e do empresariado, em defesa dessa tese. Palocci passa a ser visto, cada vez mais, como uma espécie de fiador político do governo Dilma.

Depois das resistências iniciais à presença do ex-ministro no núcleo do poder, nos últimos dias passou a ser feita uma avaliação pragmática no grupo de transição: Dilma deve saber aproveitar, e usar a seu favor, a grande interlocução de Palocci com os vários setores da sociedade. Essa preferência externa ao nome de Palocci para o comando da Casa Civil começou a ser explicitada antes mesmo da viagem de Dilma para a reunião do G-20, em Seul. E ganhou corpo durante sua ausência do Brasil.

Um interlocutor de Dilma ficou impressionado com as manifestações de apoio ao nome de Palocci. E acrescentou que isso será levado em consideração pela presidente eleita. Durante toda a campanha, Palocci foi extremamente discreto no papel de coordenador. Isso seria um ponto positivo para o exministro da Fazenda.

¿ Dilma não tem motivo para ter medo de Palocci e sabe que ele tem profundidade e interlocução com vários setores. Mostrou isso durante a campanha.

Além disso, Palocci é esperto o suficiente para entender o seu papel, e não fazer sombra. Aliás, não tenho dúvida que ele será o mais discreto de todos os colaboradores de Dilma ¿ avaliou esse interlocutor.

Por essa avaliação, Palocci estaria habilitado para ter papel importante no Palácio do Planalto.

Ainda que a ideia seja totalmente absorvida por Dilma e pelo presidente Lula, como alguns petistas dizem que é possível, não estaria certa a função de Palocci no Planalto. São duas as opções: a chefia da Casa Civil e o comando da Secretaria Geral da Presidência, pasta que seria turbinada com atribuições do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, numa reformulação mais ampla do Planalto.

A presença de Palocci no Planalto voltou a ser considerada com força depois que ele mesmo chegou a sinalizar que não teria interesse de comandar o Ministério da Saúde. Essa foi a primeira opção pensada pela própria Dilma e pelo presidente Lula. De fato, havia preocupação de que o ex-ministro da Fazenda pudesse ofuscar a presidente eleita. Mas há o reconhecimento de que, ao longo dos últimos meses, Palocci ganhou a confiança de Dilma ao cumprir missões importantes da campanha.

¿ Uma coisa é certa: Palocci estará no governo. Não podemos abrir mão da experiência dele ¿ reforçou outro interlocutor de Dilma.

Para a composição do seu futuro Ministério, esta semana Dilma terá um outro problema para administrar: além do excesso de indicações dos partidos, o que já era esperado, há uma lista ampla de vetos. As resistências identificadas vão do PT ao PMDB, passando por todas as legendas da base aliada.

Esse debate será aprofundado a partir de terça-feira com o presidente do PT, José Eduardo Dutra, e os demais coordenadores da equipe de transição. Há desconforto com essa posição dos partidos da base de engessar as escolhas da presidente eleita.

¿ Ninguém tem poder de vetar nenhum nome. Se a presidente Dilma decidir por uma indicação, está decidido.

Quem recebeu 55 milhões de votos foi ela ¿ disse José Eduardo Dutra.

Os vetos começaram a surgir dentro da bancada do PT. O principal alvo passou a ser o ministro da Educação, Fernando Haddad. Depois da crise em torno do Enem, Haddad passou a ser mais duramente criticado por petistas ¿ ele já era alvo de críticas da bancada por causa da falta de habilidade política com os parlamentares.

Jobim e Meirelles não serão chancelados pelo PMDB

Na bancada do PMDB, o ministro da Defesa, Nelson Jobim, e o presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, não terão os nomes respaldados para nenhum cargo no governo de Dilma, por não representarem o partido, segundo líderes e dirigentes. O mesmo veto recebeu o ministro da Saúde, José Gomes Temporão.

Outra resistência identificada é quanto ao possível retorno do senador Hélio Costa (PMDB-MG), derrotado para o governo de Minas, para o Ministério das Comunicações.

No PR, a situação é mais delicada.

O partido indicou o senador Alfredo Nascimento (PR-AM) para retornar ao Ministério dos Transportes. Mas há preocupação com o fato de ele ter forte divergência com o governador reeleito Omar Aziz (PMN-AM) e com o senador eleito Eduardo Braga (PMDBAM), também aliados do governo federal.

O próprio PR reconhece internamente que seria um duplo problema insistir no nome de Nascimento: as resistências regionais, e o fato de ser a indicação de um derrotado nas urnas.

Um desgaste a ser negociado diretamente por Dilma e sua equipe, já que Nascimento é também presidente do PR.

Outro partido que também quer exercer o poder de veto a nomes para o MInistério de Dilma é o PP. Os progressistas da Câmara decidiram oficializar o nome do ex-líder, deputado Mário Negromonte (PPBA), para o Ministério das Cidades.

Isso porque há forte resistência pela permanência do ministro Márcio Fortes na pasta ¿ um dos ministros mais elogiados por Dilma quando estava na Casa Civil.

¿ O tempo corre contra o indicado e não contra quem vai indicar, no caso Dilma. Até porque existe limite para o veto ¿ advertiu o secretário de Comunicação do PT, deputado André Vargas (PR).

¿ Dilma tem que ter liberdade para manter no seu governo ou tirar qualquer pessoa.

É deselegante um partido que participa da base tentar engessar a presidente eleita ¿ reforçou o líder do governo, deputado Cândido Vaccarezza (PT-SP).