Título: PT diz que Dilma tem 'carta branca' para escolher
Autor: Ruether, Graça Magalhães
Fonte: O Globo, 20/11/2010, O País, p. 10

Interlocutores da presidente eleita se irritam com Temer, que não teria evitado as pressões do PMDB

BRASÍLIA. Ainda sob o impacto do golpe desferido pelo PMDB com a tentativa de formação de um blocão na Câmara, dirigentes petistas que participaram ontem da reunião do Diretório Nacional mostraram-se afinados com o discurso da presidente eleita, Dilma Rousseff, que pediu autonomia para a formação do governo. Em coro, reagiram, dizendo que ela não será refém de ninguém, que terá carta branca do partido para fazer o que quiser na sua equipe, para arbitrar disputas e tomar decisões temáticas. Um recado para tentar desfazer aquela visão de que Dilma, por não ser tão forte como Lula, seria refém do PT ou do PMDB.

- A bancada do PT é solução, não um problema. Não queremos impor condições - afirmou o senador Aloizio Mercadante, que deve ser ministro de Dilma.

Interlocutores da presidente eleita manifestaram grande irritação com a postura do vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP), por não ter impedido a tentativa de pressão de setores do seu partido comandados pelo líder Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN) e o deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ). Dilma teria recomendado a Temer que se afastasse da Presidência do PMDB e da Câmara, para não sofrer outros desgastes com ações desses grupos.

O ex-ministro e deputado cassado José Dirceu, que ainda tem força na estrutura interna do PT e é membro do Diretório Nacional do partido, tem acompanhado a movimentação política em Brasília, ainda que sem aparecer muito. O mesmo Dirceu que há uns três meses, em palestra para petroleiros em Salvador, disse que num eventual governo Dilma o PT teria mais força, assumiu ontem um novo discurso.

Ao ser questionado se Dilma poderá ficar refém do PMDB, que teria pretendido fazer chantagem com a ideia do blocão, Dirceu afirmou:

- A Dilma não é refém de ninguém. Ela é refém do eleitorado e do povo brasileiro. Isso (blocão) faz parte da política partidária. Nós fizemos de tudo e um pouco mais ainda do que podíamos para cumprir todos os acordos com o PMDB na eleição.

Sobre o tamanho do poder do PT e do PMDB, disse:

- Essa questão do blocão está superada, isso não existe mais. O PT e PMDB estão condenados a se entenderem e governarem juntos com os demais partidos da aliança.

Outros petistas, no entanto, deram recados mais duros aos aliados, dizendo que Dilma não abrirá espaço para chantagens de partidos aliados:

- Queremos a unidade, mas não existe Poliana no jogo político. Eles vão conhecer a Dilma. Ela não será refém de ninguém - disse a senadora eleita Marta Suplicy (PT-SP).

- Damos carta branca total à presidente. Confiamos nela - assegurou o deputado Henrique Fontana (PT-RS).