Título: motivacoes interna e externa
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Fonte: O Globo, 24/11/2010, O Mundo, p. 35

Regime busca reforçar programa nuclear e imagem de sucessor

O ataque realizado pela Coreia do Norte ao Sul pode ser lido em linhas-chave das políticas internacional e nacional. Por um lado, o regime de Kim Jong-il pode estar buscando endurecer sua posição nas negociações multilaterais para o desmantelamento de seu programa nuclear em troca de ajuda ¿ e que estão paralisadas. Por outro, pode servir para reforçar a imagem de seu governo e de seu filho Kim Jong-un, a quem Kim Jong-il, de 68 anos, que sofreu um derrame em agosto de 2008, nomeou herdeiro do trono da única dinastia comunista do mundo.

A Coreia do Norte tem repetido nos últimos meses seu desejo de regressar às negociações, e já reclamou seu direito de ser um Estado nuclear, algo que Estados Unidos, Coreia do Sul e Japão não estão dispostos a tolerar. Além disso, Seul se nega a voltar à mesa de negociações enquanto o Norte continuar se negando a pedir desculpas por um navio de guerra sul-coreano afundado em março, no qual morreram 46 marinheiros. O Norte nega qualquer implicação no incidente.

Daí que Pyongyang pode estar tentando, com o ataque, pressionar Washington para que impulsione as negociações e, quem sabe, ao mesmo tempo aceite a existência de um programa de enriquecimento de urânio de uso pacífico, para gerar a eletricidade que o país tanto precisa.

O momento escolhido não é gratuito. Stephen Bosworth, enviado especial americano para as negociações com o Norte, está na Ásia para discutir com autoridades de Coreia do Sul, Japão e China o desafio apresentado pelo programa de urânio. Pyongyang pode estar tentando mostrar seu desgosto com Washington porque, após viajar a Seul, Bosworth descartou ontem em Tóquio o relançamento das conversações internacionais.

¿ Não contemplamos a possibilidade de voltar às negociações enquanto haja programas (nucleares) em desenvolvimento ou enquanto exista a possibilidade de que a Coreia do Norte realize outra prova atômica ou teste outro míssil ¿ disse.

Bosworth assegurou que os outros países que também participam das negociações a seis partes ¿ China, Rússia, Coreia do Sul e Japão ¿ estão comprometidos em fazer avançar o processo de desnuclearização, mas que duvidam da sinceridade de Pyongyang.

A tensão na região é alta desde que a fragata sul-coreana afundou em março e da troca de disparos no final de outubro, entre os dois Exércitos, perto da Zona Desmilitarizada que separa os dois países. Este último incidente aconteceu poucos dias antes da cúpula do G-20, em Seul, à qual assistiu o presidente Barack Obama. Pyongyang tem tradição de levar a cabo provocações em momento politicamente sensíveis.