Título: Cai o numero de novos registros da doenca
Autor: Marinho, Antônio
Fonte: O Globo, 24/11/2010, Ciencia, p. 38

Relatório aponta, pela primeira vez, declínio na expansão da epidemia no mundo

BRASÍLIA. Relatório do Programa de Aids das Nações Unidas (Unaids) mostra, pela primeira vez, um declínio na expansão da doença no mundo. Segundo o levantamento, divulgado ontem, 2,6 milhões de pessoas contraíram o vírus da Aids em 2009 ¿ um número quase 20% menor que os 3,1 milhões de casos registrados em 1999, quando a epidemia estava nos níveis mais altos. O documento revela ainda que, no ano passado, 1,8 milhão de pessoas morreram em decorrência de doenças relacionadas à Aids. Em 2004, a Aids matou 2,1 milhões de pessoas.

No Brasil, a doença avança nas regiões Norte e até no Nordeste, mas está estabilizada desde o ano 2000, com 600 mil pessoas infectadas.

¿ É o primeiro relatório otimista que o Unaids faz ¿ afirmou Pedro Chequer, coordenador da organização no Brasil.

Segundo Chequer, houve redução da epidemia até mesmo na África Subsaariana, onde o problema é considerado mais grave. Pelo relatório, ano passado as autoridades da região registraram 1,8 milhão de novos casos e 1,3 milhão de mortes. Os números estão abaixo do quadro verificado em 2001, quando 2,2 milhões de pessoas contraíram o vírus e 1,4 milhão morreram de complicações da Aids. O estudo aponta, no entanto, crescimento da doença na Europa Oriental e, principalmente, em Rússia e Ucrânia, onde a transmissão é mais comum entre usuários de drogas injetáveis.

Para Chequer, o combate à Aids nestes dois países, e em outros da região, não tem recebido a devida atenção. Ele argumenta que em algumas dessas sociedades, o uso de drogas é encarado como uma opção individual e o usuário deve arcar com todas as responsabilidades em relação à doença. O coordenador do Unaids reafirmou que a meta da entidade é ver reduzido a zero a transmissão e as mortes por Aids a partir de 2015 em todo o mundo. Mas o objetivo só será alcançado se alguns governos aumentarem os investimentos.

Pelos dados do Unaids, existe hoje um déficit de US$10 bilhões para prevenção e tratamento da Aids. Chequer diz que os países ricos estão deixando de fazer aporte de recursos na área por conta da crise financeira mundial. A saúde pública estaria entre as áreas mais prejudicadas pelo arrocho financeiro.

¿ Eles gastaram quase US$2 trilhões para salvar os banqueiros e agora dizem que não têm US$10 bilhões para combater a Aids. Há necessidade de revisão de conceito ¿ disse Chequer.

O relatório mostra ainda que está aumentando o tempo de vida de pessoas infectadas com o HIV. No ano passado, 33,3 milhões de pessoas viviam com o vírus. Em 2001, o número de pessoas que resistiam à doença era menor: 26,2 milhões. A redução da transmissão e da letalidade da Aids está relacionada à prevenção, ao diagnóstico precoce e ao acesso ao tratamento com os antirretrovirais.

Desde seu surgimento, a Aids já atingiu 60 milhões de pessoas e matou aproximadamente 30 milhões. Ano passado, chegou a 16,6 milhões o número de crianças e adolescentes, na faixa de 0 a 17 anos, que perderam os pais devido ao HIV. Os números indicam ainda que 7 mil pessoas contraem a doença por dia, boa parte delas crianças.